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Um cadáver de poeta

por Álvares de Azevedo*

Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver!

Tu não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve!

L. Uhland

I

De tanta inspiração e tanta vida

Que os nervos convulsivos inflamava

E ardia sem conforto.. .

O que resta? uma sombra esvaecida,

Um triste que sem mãe agonizava…

Resta um poeta morto!

.

Morrer! e resvalar na sepultura,

Frias na fronte as ilusões — no peito

Quebrado o coração!

Nem saudades levar da vida impura

Onde arquejou de fome… sem um leito!

Em treva e solidão!

.

Tu foste como o sol; tu parecias

Ter na aurora da vida a eternidade

Na larga fronte escrita. . .

Porém não voltarás como surgias!

Apagou-se teu sol da mocidade

N’uma treva maldita!

.

Tua estrela mentiu. E do fadário

De tua vida a página primeira

Na tumba se rasgou…

Pobre gênio de Deus, nem um sudário!

Nem túmulo nem cruz! como a caveira

Que um lobo devorou!. . .

.

II

Morreu um trovador — morreu de fome.

Acharam-n’o deitado no caminho:

Tão doce era o semblante! Sobre os lábios

Flutuava-lhe um riso esperançoso.

E o morto parecia adormecido.

.

Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte

Nas horas da agonia! Nem um beijo

Em boca de mulher! nem mão amiga

Fechou ao trovador os tristes olhos!

Ninguém chorou por ele… No seu peito

Não havia colar nem bolsa d’oiro;

Tinha até seu punhal um férreo punho…

Pobretão! não valia a sepultura!

.

Todos o viam e passavam todos.

Contudo era bem morto desde a aurora.

Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel

Um ceitil para a cova!… nem sudário!

O mundo tem razão, sisudo pensa,

E a turba tem um cérebro sublime!

De que vale um poeta — um pobre louco

Que leva os dias a sonhar — insano

Amante de utopias e virtudes

E, n’um tempo sem Deus, ainda crente?

.

A poesia é de certo uma loucura;

Sêneca o disse, um homem de renome.

É um defeito no cérebro… Que doudos!

É um grande favor, é muita esmola

Dizer-lhes bravo! à inspiração divina,

E, quando tremem de miséria e fome,

Dar-lhes um leito no hospital dos loucos…

Quando é gelada a fronte sonhadora,

Por que há de o vivo que despreza rimas

Cansar os braços arrastando um morto,

Ou pagar os salários do coveiro?

A bolsa esvaziar por um misérrimo,

Quando a emprega melhor em lodo e vício!

E que venham aí falar-me em Tasso!

Culpar Afonso d’Este — um soberano! —

Por não lhe dar a mão da irmã fidalga!

Um poeta é um poeta — apenas isso:

Procure para amar as poetisas!

Se na França a princesa Margarida,

De Francisco Primeiro irmã formosa,

Ao poeta Alain Chartier adormecido

Deu nos lábios um beijo, é que esta moça,

Apesar de princesa, era uma douda,

E a prova é que também rondós fazia.

Se Riccio o trovador obteve amores

— Novela até bastante duvidosa —

Dessa Maria Stuart formosíssima,

É que ela — sabe-o Deus! — fez tanta asneira,

Que não admira que a um poeta amasse!

.

Por isso adoro o libertino Horácio.

Namorou algum dia uma parenta

Do patrono Mecenas? Parasita,

Só pedia dinheiro — no triclinio

Bebia vinho bom — e não vivia

Fazendo versos às irmãs de Augusto.

.

E quem era Camões? Por ter perdido

Um olho na batalha e ser valente,

As esmolas valeu. Mas quanto ao resto,

Por fazer umas trovas de vadio,

Deveriam lhe dar, além de glória,

— E essa deram-lhe à farta — algum bispado,

Alguma dessas gordas sinecuras

Que se davam a idiotas fidalguias?

.

Deixem-se de visões, queimem-se os versos.

O mundo não avança por cantigas.

Creiam do poviléu os trovadores

Que um poema não val meia princesa.

.

Um poema contudo, bem escrito,

Bem limado e bem cheio de tetéias,

Nas horas do café lido fumando,

Ou no campo, na sombra do arvoredo,

Quando se quer dormir e não há sono,

Tem o mesmo valor que a dormideira.

.

Mas não passe dali do vate a mente.

Tudo o mais são orgulhos, são loucuras!

Faublas tem mais leitores do que Homero. . .

Um poeta no mundo tem apenas

O valor de um canário de gaiola. . .

É prazer de um momento, é mero luxo.

Contente-se em traçar nas folhas brancas

De um Álbum da moda umas quadrinhas.

Nem faça apelações para o futuro.

O homem é sempre o homem. Tem juízo.

Desde que o mundo é mundo assim cogita.

.

Nem há negá-lo — não há doce lira

Nem sangue de poeta ou alma virgem

Que valha o talismã que no oiro vibra!

Nem músicas nem santas harmonias

Igualam o condão, esse eletrismo,

A ardente vibração do som metálico…

……………………………………………………..

Meu Deus! e assim fizeste a criatura?

Amassaste no lodo o peito humano?

Ó poetas, silêncio! é este o homem?

A feitura de Deus! a imagem dele!

O rei da criação!. . .

.

Que verme infame!

Não Deus, porém Satã no peito vácuo

Uma corda prendeu-te — o egoísmo!

Oh! miséria, meu Deus! e que miséria!

.

III

Passou El-Rei ali com seus fidalgos.

Iam a degolar uns insolentes

Que ousaram murmurar da infâmia régia,

Das nódoas de uma vida libertina!

Iam em grande gala. O Rei cismava

Na glória de espetar no pelourinho

A cabeça de um pobre degolado.

Era um rei bon-vivant, e rei devoto:

E, como Luís XI, ao lado tinha

O bobo, o capelão… e seu carrasco.

.

O cavalo do Rei, sentindo o morto,

Trêmulo de terror parou nitrindo.

Deu d’esporas leviano o cavaleiro

E disse ao capelão:

“E não enterram

Esse homem que apodrece, e no caminho

Assusta-me o corcel?”

Depois voltou-se

E disse ao camarista de semana:

“Conheces o defunto? Era inda moço.

Faria certamente um bom soldado.

A figura é esbelta! Forte pena!

Podia bem servir para um lacaio.”

.

Descoberto o faceiro fidalgote

Responde-lhe fazendo a cortesia:

“Pelas tripas do Papa! eu não me engano,

Leve-me Satanás se este defunto

Ontem não era o trovador Tancredo!”

.

“Tancredo”! murmurou erguendo os óculos

Um anfíbio, um barbaças truanesco,

Alma de Triboulet, que além de bobo

Era o vate da corte — bem nutrido,

Farto de sangue, mas de veia pobre,

Caídos beiços, volumoso abdômen,

Grisalha cabeleira esparramada,

Tremendo narigão, mas testa curta;

Em suma um glosador de sobremesas.

.

“Tancredo! — repetiu imaginando —

Um asno! só cantava para o povo!

Uma língua de fel, um insolente!

Orgulho desmedido.. . e quanto aos versos

Morava como um sapo n’água doce…

Não sabia fazer um trocadilho. . .”

.

O rei passou — com ele a companhia.

Só ficou ressupino e macilento

Da estrada em meio o trovador defunto.

.

IV

Ia caindo o sol. Bem reclinado

No vagaroso coche madornando,

Depois de bem jantar fazendo a sesta,

Roncava um nédio, um barrigudo frade:

Bochechas e nariz, em cima uns óculos,

Vermelho solidéu… enfim um bispo,

E um bispo, senhor Deus! da idade média,

Em que os bispos — como hoje e mais ainda —

Sob o peso da cruz bem rubicundos,

Dormindo bem, e a regalar bebendo,

Sabiam engordar na sinecura;

Papudos santarrões, depois da Missa

Lançando ao povo a bênção — por dinheiro!

.

O cocheiro ia bêbado por certo;

Os cavalos tocou p’lo bom caminho

Mesmo em cima das pernas do cadáver.

Refugou a parelha, mas o sota

— Que ao sol da glória episcopal enchia

De orgulho e de insolência o couro inerte,

Cuspindo o poviléu, como um fidalgo —

Que em falta de miolo tinha vinho

Na cabeça devassa, deu de esporas:

Como passara sobre a vil carniça

Reléu de corvos negros — foi por cima. . .

Mas desgraça! maldito aquele morto!

Desgraça!… não porque pisasse o coche

Aqueles magros ossos, mas a roda

Na humana resistência deu estalo. . .

E acorda o fradalhão…

.

“O que sucede?

— Pergunta bocejando: — É algum bêbado?

Em que bicho pisaram?”

.

“Senhor bispo”

Diz o servo da Igreja, o bom cocheiro

Ao vigário de Cristo, ao santo Apóstolo

Isto é — dessa fidalga raça nova

Que não anda de pé como S. Pedro,

Nem estafa os corcéis de S. Francisco:

“Perdoe Vossa Excelência Eminentíssima;

É um pobre-diabo de poeta,

Um homem sem miolo e sem barriga

Que lembrou-se de vir morrer na estrada!”

.

“Abrenúncio! — rouqueja o Santo Bispo —

Leve o Diabo essa tribo de boêmios!

Não há tanto lugar onde se morra?

Maldita gente! inda persegue os Santos

Depois que o Diabo a leva!. . .”

.

E foi caminho.

.

Leve-te Deus! Apóstolo da crença,

Da esperança e da santa caridade!

Tu, sim, és religioso e nos altares

Vem cada sacristão, e cada monge

Agitar a teus pés o seu turíbulo!

E o sangue do Senhor no cálix d’oiro

Da turba na oração te banha os lábios…

.

Leve-te Deus, Apóstolo da crença!

Sem padres como tu que fora o mundo?

É por ti que o altar apóia o trono!

E teu olhar que fertiliza os vales

Fecunda a vinha santa do Messias!

.

Leve-te Deus… ou leve-te o Demônio!

.

V

Caiu a noite, do azulado manto,

Como gotas de orvalho, sacudindo

Estrelas cintilantes. — Veio a lua

Banhando de tristeza o céu noturno:

Derrama aos corações melancolia,

Derrama no ar cheiroso molente

Cerúlea chama, dia incerto e pálido

Que ao lado da floresta ajunta as sombras

E lança pelas águas da campina

Alvacentos clarões que as flores bebem.

A galope, de volta do noivado,

Passa o Conde Solfier, e a noiva Elfrida.

Seguem fidalgos que o sarau reclama.

Elfrida

— Não vês, Solfier, ali da estrada em meio

Um defunto estendido? —

Solfier

— Ó minha Elfrida,

Voltemos desse lado: outro caminho

Se dirige ao castelo. É mau agouro

Por um morto passar em noites destas. —

Mas Elfrida aproxima o seu cavalo.

Elfrida

— Tancredo!… vede! é o trovador Tancredo!

Coitado! assim morrer! um pobre moço!

Sem mãe e sem irmã! E não o enterram?

Neste mundo não teve um só amigo? —

“Ninguém, senhora! — respondeu da sombra

Uma dorida voz: — Eu vim, há pouco,

Ao saber que do povo no abandono

Jazia como um cão. Eu vim, e eu mesmo

Cavei junto do lago a cova impura.”

Elfrida

— Tendes um coração. Tomai, mancebo,

Tomai essa pulseira… Em oiro e jóias

Tem bastante p’ra erguer-lhe um monumento,

E para longas missas lhe dizerem

Pelo repouso d’alma… —

O moço riu-se.

O Desconhecido

— Obrigado. Guardai as vossas jóias.

Tancredo o trovador morreu de fome;

Passaram-lhe no corpo frio e morto,

Salpicaram de lodo a face dele,

Talvez cuspissem nesta fronte santa

Cheia outrora de eternas fantasias,

De idéias a valer um mundo inteiro!…

Por que lançar esmolas ao cadáver?

Leva-as, fidalga — tuas jóias belas!

O orgulho do plebeu as vê sorrindo.

Missas… bem sabe Deus se neste mundo

Gemeu alma tão pura como a dele!

Foi um anjo, e murchou-se como as flores,

Morreu sorrindo como as virgens morrem!

Alma doce que os homens enjeitaram,

Lírio que profanou a turba imunda,

Oh! não te mancharei nem a lembrança

Com o óbolo dos ricos! Pobre corpo,

És o templo deserto, onde habitava

O Deus que em ti sofreu por um momento!

Dorme, pobre Tancredo! eu tenho braços:

Na cova negra dormirás tranqüilo. . .

Tu repousas ao menos!. . .

………………………………….

No entanto sofreando a custo a raiva,

Mordendo os lábios de soberba e fúria,

Solfier da bainha arranca a espada,

Avança ao moço e brada-lhe:

“Insolente!

Cala-te, doudo! Cala-te, mendigo!

Não vês quem te falou? Curva o joelho,

Tira o gorro, vilão!”

O Desconhecido

— Tu vês: não tremo.

Tu não vales o vento que salpica

Tua fronte de pó. Porque és fidalgo,

Não sabes que um punhal vale uma espada

Dentro do coração? —

.

Mas logo Elfrida:

“Acalma-te, Solfier! O triste moço

Desespera, blasfema e não me insulta.

Perdoa-me também, mancebo triste;

Não pensei ofender tamanho orgulho.

Tua mágoa respeito. Só te imploro

Que sobre a fronte ao trovador desfolhes

Essas flores, as flores do noivado

De uma triste mulher… E quanto às jóias,

Lança-as no lago. . . Mas quem és? teu nome?”

O Desconhecido

— Quem sou? um doudo, uma alma de insensato,

Que Deus maldisse e que Satã devora;

Um corpo moribundo em que se nutre

Uma centelha de pungente fogo,

Um raio divinal que dói e mata,

Que doira as nuvens e amortalha a terra!…

Uma alma como o pó em que se pisa;

Um bastardo de Deus, um vagabundo

A que o gênio gravou na fronte — anátema!

Desses que a turba com o dedo aponta. . .

Mas não; não hei de sê-lo! eu juro n’alma,

Pela caveira, pelas negras cinzas

De minha mãe o juro… agora há pouco

Junto de um morto reneguei do gênio,

Quebrei a lira à pedra de um sepulcro. . .

Eu era um trovador, sou um mendigo… —

.

Ergueu do chão a dádiva d’Elfrida;

Roçou as flores aos trementes lábios;

Beijou-as. Sobre o peito de Tancredo

Pousou-as lentamente…

— Em nome dele,

Agradeço estas flores do teu seio,

Anjo que sobre um túmulo desfolhas

Tuas últimas flores de donzela! —

.

Depois vibrou na lira estranhas mágoas,

Carpiu à longa noite escuras nênias,

Cantou: banhou de lágrimas o morto.

.

De repente parou — vibrou a lira

Co’as mãos iradas trêmulas… e as cordas

Uma per uma rebentou cantando…

Tinha fogo no crânio, e sufocava.

Passou a fria mão nas fontes úmidas,

Abriu a medo os lábios convulsivos,

Sorriu de desespero — e sempre rindo

Quebrou as jóias e as lançou no abismo…

VI

No outro dia, na borda do caminho

Deitado ao pé de um fosso aberto apenas

Viu-se um mancebo loiro que morria. . .

Semblante feminil, e formas débeis,

Mas nos palores da espaçosa fronte

Uma sombria dor cavara sulcos.

Corria sobre os lábios alvacentos

Uma leve umidez, um ló d’escuma,

E seus dentes a raiva constringira…

Tinha os punhos cerrados. . . Sobre o peito

Acharam letras de uma língua estranha. . .

E um vidro sem licor. . . fora veneno!. . .

.

Ninguém o conheceu; mas conta o povo

Que, ao lançá-lo no túmulo, o coveiro

Quis roubar-lhe o gibão — despiu o moço. . .

E viu. . . talvez é falso. . . níveos seios. . .

Um corpo de mulher de formas puras. . .

.

VII

Na tumba dormem os mistérios d’ambos;

Da morte o negro véu não há erguê-lo!

Romance obscuro de paixões ignotas,

Poema d’esperança e desventura,

Quando a aurora mais bela os encantava,

Talvez rompeu-se no sepulcro deles!

Não pode o bardo revelar segredos

Que levaram ao céu as ternas sombras;

Desfolha apenas nessas frontes puras

Da extrema inspiração as flores murchas. . .

.

*Manuel Antônio Álvares de Azevedo  (1831 -1852) foi um escritor da segunda geração romântica (Ultra-Romântica, Byroniana ou Mal-do-século), contista, dramaturgo, poeta e ensaísta brasileiro, autor de Noite na Taverna.

Ambulantes no Rio de Janeiro

por Marc Ferrez*

Vendedor ambulante – 1895

Vendedor ambulante

Vendedor ambulante de frutas – 1895

 

Meninos vendem jornais – 1899

 

.

* Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um fotógrafo franco-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro. Retratou cenas dos períodos do Império e início da República, entre 1865 e 1918, sendo que seu trabalho é um dos mais importantes legados visuais daquelas épocas.

Descripção verdadeira de um paiz de selvagens nús, ferozes e cannibaes, situado no novo mundo América, desconhecido na terra de Hessen antes e depois do nascimento de Christo, até que, há dois annos, Hans Staden de Homberg, em Hessen, por sua própria experiência, o conheceu e agora a dá à luz pela segunda vez, diligentemente augmentada e melhorada

por Hans Staden*

.

* Hans Staden (Homberg (Efze), c. 1525 — Wolfhagen, c. 1579) foi um aventureiro mercenário alemão. Por duas vezes Staden passou pela América Portuguesa no início do século XVI, onde teve oportunidade de participar de combates na Capitania de Pernambuco e na Capitania de São Vicente, contra corsários franceses. Este é um trecho do livro Viagem ao Brasil.
Em sua segunda viagem ao Brasil, enquanto caçava sozinho, Staden foi feito prisioneiro por uma tribo Tupinambá que o conduziu a Ubatuba. Desde o início ficou claro que a intenção dos seus captores era devorá-lo. Pouco tempo depois, os tupiniquins aliados dos portugueses atacaram a aldeia onde ele era mantido prisioneiro. Mesmo cativo, e não tendo escolha, lutou ao lado dos tupinambás. Seu desejo era tentar fugir para unir-se aos atacantes. Mas, estes, vendo que a luta era inútil, logo desistiram.

Quando as coisas não funcionam

por Mauro Castro*

Fui atender a uma solicitação de táxi em um motel. Parei em frente ao apartamento indicado, liguei o taxímetro e esperei. Primeiro desceu um senhor bem vestido, cerca de 50 anos. Ele embarcou na frente e, antes que fechasse a porta, pedi que apagasse o cigarro. O homem virou uma arara. Ficou do lado de fora do táxi fumando e protestando contra os chatos antitabagistas. Liguei o rádio para não ouvir os resmungos.

Em seguida, veio uma mulher, também elegante, ajeitando o cabelo e falando ao celular. Os dois embarcaram e, antes que eu arrancasse, o homem protestou quanto ao valor que constava no taxímetro. Expliquei que a corrida começava no momento que eu chegava ao endereço solicitado. A demora em embarcar no táxi fica por conta do cliente. Novo discurso do homem. Blá, blá, blá…

Logo que saímos do motel, novo problema. Para evitar fechar um cruzamento, parei o táxi no sinal verde, esperando que os carros da frente andassem. O homem pediu que eu avançasse o sinal, que trancasse tudo se fosse preciso, pois estava com pressa. Sua deselegância estava passando dos limites e minha paciência acabando. Aquilo não ia terminar bem.

No banco de trás, a mulher, com um pequeno espelho, parecia concentrada em retocar a maquiagem. A cada nova grosseria do homem, ela limitava-se a olhar para ele, revirar os olhos, suspirar e voltava ao que estava fazendo. Enquanto isso, o clima no táxi piorava.

Lá pelas tantas, o homem enfiou o dedo no rádio e desligou a música, reclamando do barulho. Eu já estava pronto para mandá-lo longe quando a mulher, enfim, abriu a boca:

- Meu bem, o mundo não tem culpa de as coisas hoje não terem funcionado como deveriam.

Juro que ela disse isso. Bem assim, como todas as letras transbordando malícia. Uma frase avassaladora, que soterrou o homem no banco do táxi, a ponto de não se ouvir dele nem mais um pio.

Deixei-os em um shopping. Por certo, vão procurar entre as prateleiras o prazer que não encontraram no motel. Isto se o cartão de crédito do homem funcionar, é claro.

.
* Mauro Castro é taxista em Porto Alegre e é conhecido na internet por seu blog Taxitramas, em que publica crônicas sobre o cotidiano do seu ofício. Entrevistamos ele por aqui há alguns anos.

Gato Felix

por Pat Sullivan*



Neste desenho de 1923, o Gato Feliz vai atrás de respostas sobre a teoria da evolução. Ele responde a um anúncio de jornal que promete uma recompensa para quem provar que “O homem veio do macaco”.
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Neste desenho de 1924. depois de Felix deixar seu amigo em problemas por não fazer o dever de casa, ele tenta resolver a situação bucando a resposta para o que faz a lua brilhar?”.

.

* O Gato Felix era um personagem de desenho animado criado durante a era do cinema mudo dos anos 1920. Há controvérsias sobre a origem de Felix , se ele foi criação de Pat Sullivan, o proprietário do personagem, ou do animador americano Otto Messmer.

Na década de 1920, o personagem Felix ganhou popularidade repentina e ganhou sua própria história em quadrinhos, desenhada por Messmer.

Muitos dos desenhos do Gato Felix contêm estereótipos étnicos

Espanquemos os pobres!

por Charles Baudelaire*

Durante quinze dias confinei-me em meu quarto e me cerquei de livros que estavam na moda naqueles tempos (há dezesseis ou dezessete anos); quero falar de livros em que se trata da arte de tornar os povos felizes, sábios e ricos em vinte e quatro horas. Tinha eu digerido – engolido, quero dizer – todas as elucubrações de todos os empresários da felicidade pública – dos que aconselham a todos os pobres a se fazerem escravos e dos que persuadiam que eles são reis destronados. Ninguém acharia surpreendente que eu entrasse então em um estado de espírito vizinho da vertigem ou da estupidez.

Pareceu-me, somente, que eu sentisse, confinado, no fundo do meu intelecto, o germe obscuro de uma ideia superior a todas as fórmulas de curandeiras que eu, recentemente, vira, folheando no dicionário. Mas isso só era a ideia de uma ideia, algo de infinitamente vago.

E saí com uma grande sede. Porque o gosto apaixonado por más leituras engendra uma necessidade proporcional de grandes ares e de muitas bebidas refrescantes.

Quando ia entrar num bar, um mendigo estendeu-me o chapéu com um desses inesquecíveis olhares que derrubariam tronos, se é que o espírito removesse a matéria e se o olho de um hipnotizador fizesse as uvas amadurecerem.

Ouvi, ao mesmo tempo, uma voz que me cochichava ao ouvido, uma voz que eu me reconheci bem; era a voz de um bom Anjo ou um bom Demônio, que me acompanha por todos os lugares. Se Sócrates tinha seu bom Demônio, por que eu não havia de ter o meu bom Anjo, e por que não teria eu a honra, como Sócrates, de obter um brevê de loucura, assinado pelo sutil Lélut e pelo bem informado Baillarger?

Existe essa diferença entre o Demônio de Sócrates e o meu, pois o de Sócrates só se manifestava a ele para proibir, advertir, impedir, e que o meu dignava-se a aconselhar, sugerir, persuadir; o meu é um grande afirmador, o meu é um Demônio de ação, um Demônio de combate.

Ora, sua voz cochichava isso: “Quem for igual ao outro que o prove e só é digno de liberdade quem a sabe conquistar.”

Imediatamente saltei sobre meu mendigo. Com um único soco fechei-lhe um olho, que, em um segundo, tornou-se inchado como uma bola. Quebrei uma unha ao partir-lhe dois dentes, e como eu não me sentisse bastante forte, tendo nascido de compleição delicada e tivesse pouca prática de boxe, para desancar aquele velho, peguei-o com uma das mãos pela gola de seu casaco e com a outra lhe agarrei a garganta e me pus a sacudi-lo, vigorosamente, cabeça contra a parede. Devo confessar que já havia previamente inspecionado os arredores com uma olhada e havia verificado que naquele subúrbio deserto eu me achava, por algum tempo, fora do alcance de qualquer policial.

Tendo, em seguida, com um pontapé, dado em suas costas, bastante enérgico para lhe quebrar as omoplatas, botei por terra aquele sexagenário enfraquecido; peguei, então, um grosso galho de árvore, que estava jogado no chão, e bati nele com a energia obstinada dos cozinheiros que querem amolecer um bife.

De repetente – ó milagre! Ó alegria do filósofo que verifica a excelência de sua teoria – vi esta antiga carcaça se virar, se levantar com uma energia que eu jamais suspeitaria que houvesse numa máquina de tal modo danificada, e, com um olhar de raiva que me pareceu de bom augúrio, o malandro decrépito jogou-se sobre mim, socou-me os dois olhos, quebrou-me quatro dentes e, com o mesmo galho de árvore, bateu-me fortemente. Pela minha enérgica medicação, eu lhe havia restituído o orgulho e a vida.

Então, eu lhe fiz sinais enérgicos para que compreendesse que eu considerava nossa discussão terminada e, levantando-me com a satisfação de um sofista de Pórtico, lhe disse: “Meu senhor, o senhor é meu igual! Queira dar-me a honra de aceitar que eu divida minha bolsa consigo, e lembre-se: se você é realmente filantropo, que é preciso aplicar, em todos os seus confrades, quando eles lhe pedirem esmolas, a mesma teoria que eu tive o sofrimento de experimentar sobre suas costas.”

Ele me jurou que havia compreendido a minha teoria e que obedeceria aos meus conselhos.

.

Charles-Pierre Baudelaire ( 1821 – 1867) foi um poeta e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia. Este trecho foi estraído do livro Pequenos poemas em prosa (parte XLIX)

amanhã eu vou lá hoje

2011 agora é só um rastro: a sobra da sombra do vácuo. fogo fátuo. o lastro com que se mede o fato de que o amanhã não é de ninguém.

à meia noite os dias vêm: vão, chão, clarabóia, janela, porta, calçada, estrada, passagem para o além.

à meia noite hoje é ontem. amanhã é hoje à meia noite.

11:59, e ele ali parado, deitado, de olhos fechados. de repente ri.

e aí, o bom bom bom bom bom bom bom bom bom bom bom bom e velho relógio de parede começa resfolegar. seu pêndulo balançando para lá e para cá. seu eco preenche a casa toda.

ele então ergue-se e decide fazer alguma coisa, qualquer coisa. uma volta, um lanche, um… bar?

ri bom bar. doze vezes. meia noite. bom dia! já era mesmo hora de acordar.

acende um cigarro, coça o saco, lava a louça, toma um banho, troca a roupa e põe-se a encher bexigas de ar. enche 150 delas. na quinquagésima começam estourar. pop.

tic tac soa o tempo escorrendo pelas paredes das horas enquanto, pop, vão-se indo as bexigas coloridas, abrindo espaço nessa vida para o nada se espraiar.

algumas murcham.

pop!

indiferente ao bexigocídio generalizado que pulula ao seu redor, nosso herói cruza a sala e em seu meio pára e impaciente olha o relógio trabalhar. parece com pressa. parece que, pop, já não vê a hora desse dia acabar. nosso herói é mesmo um trouxa. não percebe, a besta, que de tão quadrada não anda, se arrasta, que, mais dia menos dia, toda essa mordomia de dormir, acordar, caminhar, foder, comer, chapar, criar, respirar… mais dia menos dia, e cada vez mais menos são os dias, essa mordomia, pop, pop, pop, pop, ela vai terminar.

ânsia.

pop!

deixe estar.

e, de repente, subrepticiamente, pop.

mais dia menos dia, tic tac, a morte, essa alegoria, tarda mais não falha em nos igualar: vão, chão, clarabóia, janela, porta, batente, escada, calçada, estrada, passagem para o além, para o inexorável fato de que o amanhã, pop. pop, pop, pop, pop, pop, pop, pop, pop, pop, um dia vem, e vai, pois o amanhã não é de ninguém.

só que ainda não deu meia noite. é, portanto, tecnicamente hoje. abra uma champanha barata. vamos, pop! comemorar.

tin tin.

é mesmo. para quê a pressa – pensou nosso herói – e voltou a deitar.

Zefirina Bomba em vinil

por Roberta e Biu

Adoro quando bandas queridas decidem lançar suas gravações em vinil, um formato que me obriga a sentar e dispor de um tempo para ouvir, além de ter seu lugar privilegiado na estante de casa. A notícia desse lançamento não podia ser melhor: Zefirina Bomba lança seu primeiro 7 polegadas em vinil. São oito músicas gravadas em 2003, entre elas a clássica Sobre a Cabeça, que servem como um ótimo registro do histórico da banda.

O vinil é um lançamento Sub Folk, selo encabeçado por Ilsom Barros e Thelma Ramalho, e tem nossa chancela também, das Edições Facada (agora também no mundo da música), além da Tamborete Records e Clube do Vinil SP. A capa é de Stêvz, o que traz um charme a mais ao conjunto. (R)

E enquanto os porões viram salas de estar, o rock vira capital e as abrafins justificam os meios entrando nos eixos, as pedras não rolam e o limo toma conta do rock. Foda-se.

Embrulhado quase que num saco de pão, o vinil do Zefirina é uma piranha elétrica de dentes finos e hostis. Ilsom Barros e Thelma Ramalho seguem mandando todos esses senhores da cultura à merda, onde é seus lugares. Vidinha ridícula. Piada sem graça. Mas se não fossem eles, seríamos nós os cuzões, então que sejam, que rastejem. Quanto a nós, rolemos. (B)

Algumas imagens, para saberem do que se trata.

E Zefinina Bomba deixa aqui sua mensagem de Boas Festas:

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UPDATE: Se você está interessado em comprar o vinil e é de Brasília, entre em contato conosco (facadaleitemoca@gmail.com). Caso esteja em qualquer outro lugar do mundo, a Sub Folk atenderá ao seu chamado em subfolk@gmail.com.

Aparecida Blues no bate-papo sobre quadrinho em SP

No sábado, rolou um bate-papo sobre quadrinho autoral na Quanta Academia, em São Paulo. Estiveram presentes Biu (nosso sócio-fundador), Stêvz, que falaram sobre Aparecida Blues, Pedro Franz e Yuri Moraes, que falaram sobre seus livros  com mediação de Rafael Coutinho.

Para ver o debate é só clicar aqui.

Biu na banca de debates fala sobre Aparecida Blues. Desenho de Pietro.

Foto do André (nosso sócio).

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Biu, Stêvz, Pedro Franz, Yuri Moraes e Rafael Coutinho

Foto da Lívia (tirada daqui)

Carro é trabalho

por Roberta

Cabeça, tronco e rodas. Essa é a descrição de um ser humano considerado normal em Brasília (e grande parte do mundo). Por ter tanta gente obsecada por carro a minha volta, cada dia tenho menos interesse em tirar a carta de motorista. Pela minha rotina, carro não é uma coisa indispensável, entendo que seja para muita gente, como um acessório que possibilita o trabalho, o transporte de crianças, pessoas idosas, etc. Mas não mais que isso, um acessório.

A transferência da sensação de realização pessoal para a posse de um objeto é o must deste tempo. Uma coisa tão absurda chegou num nível da naturalização que o filósofo francês Jean-Pierre Dupuy conduziu um estudo nos anos 1980 para descobrir quanto tempo o francês gastava diariamente com seu carro. Levando em consideração que os problemas de trânsito pioraram no mundo inteiro nos últimos trinta anos, seus dados (e imaginar sua atualização) são assustadores, veja:

“Nos anos de 1980, seguindo uma intuição de Illich, procedi, junto com minha equipe de pesquisa, cálculos bizarros, mas rigorosos, que conduziram aos seguintes resultados:
O francês médio, naquela época, dedicava mais de quatro horas por dia ao seu carro. Seja se deslocando de um ponto a outro, dentro do carro, seja enfeitando o carro, seja, sobretudo, trabalhando nas fábricas ou escritórios para obter recursos necessários a sua aquisição, a seu uso, a sua manutenção. Recentemente, voltando aos dados que havíamos reunido para fazer esse calculo cheguei a conclusão que a situação presente é, sem dúvida, pior do que era há trinta anos. Temos razão de supor que a situação é a mesma aqui no Brasil, nos Estados Unidos, etc.
Se dividirmos o número médio de quilômetros médios percorridos, com todos os tipos de trajetos misturados, por essa duração, quatro horas por dia, obtemos uma velocidade. Esta velocidade que eu nomeei de “velocidade generalizada do automóvel” está em torno de sete quilômetros por hora, um pouco maior do que a velocidade de um homem andando, mas sensivelmente inferior à velocidade do ciclista.
O resultado obtido aritmeticamente significa o seguinte: o francês médio (o americano médio, o brasileiro médio) suponhamos sem carro, liberado, então, por suposição da necessidade de trabalhar muitas horas para pagar o carro dedicaria menos tempo generalizado ao transporte se ele fizesse todos estes seus deslocamentos de bicicleta.
Estou dizendo claramente todos os seus deslocamentos, não apenas os que faz cotidianamente para atravessar o espaço que separa sua casa do seu trabalho, mas também aqueles que no fim de semana o conduzem para a casa de campo distante (…) esse cenário alternativo seria considerado por todos completamente absurdo, intolerável. Entretanto ele economizaria tempo, energia e recursos raros. Então onde está a diferença que faz com que num caso alternativo o absurdo da situação esteja patente, enquanto no caso atual fica dissimulado? Porque afinal é menos cômico trabalhar boa parte do seu tempo para pagar os meios de chegar ao trabalho?
O cálculo precedente faz a equivalência entre uma hora de transporte e uma hora de trabalho, uma e outra sendo contadas como simples meios a serviço de outro fim, esta equivalência é a mesma dos engenheiros economistas, pode-se contestá-la, mas ela não faz de início senão levar a sério a lógica do desvio de produção. Trabalho, de um lado, e transporte, do outro, não são igualmente fins em si mesmos. O cálculo econômico tem como missão contabilizar rigorosamente a fadiga, o cansaço dos homens, condição prévia indispensável para os economistas que têm por objetivo torná-los tão pequenos quanto possível. Ora, tanto o trabalho quanto o transporte causam fadiga, cansaço.(…)
A palavra trabalho em português veio do latim tripalium, instrumento de tortura de três estacas. (…) A mesma palavra tripalium deu, em inglês, a palavra travel, o transporte. (…) O trabalho e o transporte são o mesmo esforço, a mesma tortura que ambos denotam, as palavras que nós usamos dizem isso muito claramente.
Como é possível que o absurdo de um modo de vida e subtração do espaço e do tempo social que conduzem as pessoas a dedicarem tanto tempo a seus deslocamentos para uma eficácia média tão ridiculamente pequena não seja percebido?”
Jean-Pierre Dupuy, na conferência O tempo que nos resta proferida no ciclo Mutações – Elogio à preguiça, que pode ser ouvido na íntegra no site do evento.
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Texto retirado do blog Um pouco de café e sinusite

Poemas 2

por Antonio Souza*

Substância

A metafísica e o medo
construções suaves e diáfanas
carne sutilíssima para
esconder-nos o osso
Surge o cristal, pedra que aprsiona
e que toma o
nome daquilo que apodrece
Mas, dentro, após o tutano,
muito além, talvez possamos
encontrar o caroço, logo abaixo, sob o pantâno
hiernando em seu exílio,
abaixo do que lhe servirá de adubo, o fruto

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Criação

Homens de segredos expostos
geométricos demais
Outra imagem em meu espelho
segredos por baixo da pele
atrás dos olhos
Falta-nos um útero
Um forno
para cozer o pão
e fermentar o vinho
Resta-nos a fúria de sugar
o desespero de sugar
alimentar-nos da presença
dentro
propor uma trégua a nossa fome
Solidão
Voltar a ser completo
Hermafrodita
mas ainda resta o medo de uma nova gênesis
e o temor de voltar a ser
osso

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Ouroboro

Salve o primeiro , Adão
aquele que não sentia fome.
Salve o deus dos famintos, dos loucos, dos áridos
Salve Eva , a maçã, Eva
a natureza
a loba
que nos alimenta e nos caça.

Salve a morte
a silenciadora
das infinitas vozes que habita
cada um de nós
Salve Gênesis
e os universos criados
por nossa angústia
matéria restante em nossos
corpos

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*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não ser por alguns poemas que tenho a pachorra de fazer, sou a pessoa mais sem graça do mundo  e não gosto de falar disso”.

Saiba morrer o que viver não soube

por Bocage*

Meu ser evaporei na lida insana
do tropel de paixões que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
ao mal, que a vida em sua origem dana.
Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta e si não coube,
no abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, ó Deus!… Quando a morte à luz me roube
ganhe um momento o que perderam anos
saiba morrer o que viver não soube.

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Autorretrato

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de hipócritas, e frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento:
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia, em que se achou cagando ao vento.

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* Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage (Setúbal, 15 de Setembro de 1765 — Lisboa, 21 de Dezembro de 1805) foi um poeta português e, possivelmente, o maior representante do arcadismo lusitano. Foi preso pela inquisição, e na cadeia traduziu poetas franceses e latinos.

Uma árvore de natal e um casamento

por Fiódor Dostoiévski*

Um dia destes, vi um casamento… mas não, prefiro falar-vos de uma árvore de Natal. Achei o casamento bem bonito, mas a árvore de Natal me agradou mais. Nem sei como, olhando para o casamento, me lembrei da árvore. Eis como o caso se passou.

Há cerca de cinco anos fui convidado, na véspera de Natal, para um baile infantil. A pessoa que me convidou era um conhecido homem de negócios, cheio de relações e maquinações, e, assim, não se há de estranhar que o baile infantil servisse apenas de pretexto para os pais se reunirem e, no meio da multidão, se ocuparem de seus interesses materiais com ar inocente e surpreendido.

Como houvesse chegado ali por acaso e não tivesse nenhum assunto comum com os outros, passei a noite de maneira muito independente. Havia mais um cavalheiro que, como eu, não tinha, decerto, conhecidos no grupo, e participava casualmente da felicidade familiar. Ele deu-me na vista antes de todos. Era um homem alto, magro, muito sério, vestido muito decentemente. Notava-se que a felicidade da família não lhe comunicava a menor alegria; mal se retirava a um cantinho, cessava de sorrir e franzia as sobrancelhas espessas e negras.

Afora o dono da casa, não conhecia vivalma em todo o baile. Via-se que ele se entediava horrivelmente, mas que resolvera manter até o fim o papel do homem que se diverte e é feliz. Soube depois que era um provinciano vindo à capital a algum negócio importante e complicado. Trouxera carta de recomendação para o nosso hospedeiro, que o protegia, porém, não con amore, e o convidara, por cortesia, para o baile infantil. Não jogavam cartas com o provinciano, ninguém lhe oferecia um charuto nem com ele entabulava conversação, talvez porque reconhecessem de longe o pássaro pela plumagem, e, deste modo, o meu cavalheiro via-se obrigado, para ter que fazer das mãos, a alisar a noite inteira as suas suíças. Eram, aliás, umas suíças realmente belas – porém ele as acariciava com tanto zelo que a gente, ao fitá-lo, sentia-se inclinada a pensar que primeiro vieram ao inundo as suíças e só depois o homem, para cofiá-las, inserido entre elas.

Além desse personagem, que tomava parte na felicidade do dono da casa, pai de cinco garotos bem nutridos, do modo que acabo de relatar, outro conviva caíra no meu agrado. Mas este era de aspecto completamente diverso. Era um personagem a quem os outros chamavam Julião Mastakovitch. Percebia-se à primeira vista que era ele o convidado de honra. Estava para o dono da casa como este para o cavalheiro que afagava as suíças. O dono e a dona da casa falavam-lhe com amabilidade extraordinária, cortejavam-no, enchiam-lhe o copo, amimavam-no, e lhe apresentavam, recomendando-os, vários convidados, ao passo que a ele não o apresentavam a ninguém. Notei até uma lágrima nos olhos do hospedeiro quando Julião Mastakovitch observou que raras vezes passara o tempo de maneira tão agradável como naquela noite. Comecei a sentir-me acabrunhadíssimo em presença de semelhante figura, e, depois de haver admirado as crianças, retirei-me a um pequeno salão, totalmente vazio, e fui sentar-me sob o florido caramanchão da dona da casa, o qual ocupava quase a metade de toda a peça.

Eram as crianças incrivelmente gentis, e não queriam, apesar de todas as exortações das mamães e das governantas, parecer-se com as pessoas grandes. Num piscar de olho desmontaram toda a árvore de Natal, e conseguiram quebrar a metade dos brinquedos antes mesmo de saber a quem eram destinados. Achei particularmente engraçado um menino de olhos pretos e cabelos frisados que à viva força me queria matar com a sua espingarda de pau. Entretanto, mais que todos, atraía-me a atenção sua irmã, menina de onze anos, um amor de criança, meiga, cismativa, pálida, com grandes olhos sonhadores à flor do rosto. Parecia que os amiguinhos a tinham ofendido, pois veio ao salão onde eu estava sentado e, a um cantinho pôs-se a brincar com as suas bonecas. Os convidados apontavam, com respeito, um rico negociante, pai da menina, e alguém observou, cochichando, que ela já tinha trezentos mil rublos reservados como dote. Voltei-me para ver quem se interessava por esses pormenores, e o meu olhar caiu sobre Julião Mastakovitch o qual, de mãos cruzadas atrás das costas e inclinando a cabeça para um lado, parecia acompanhar com particular atenção o mexerico de alguns senhores. Pouco depois, não pude furtar-me a admirar a sabedoria dos anfitriões na distribuição dos brindes às crianças. A menina que já tinha seus trezentos mil rublos de dote ganhou uma boneca suntuosíssima.

Desde então os presentes foram diminuindo de valor, de acordo com a diminuição da importância dos pais daquelas crianças felizes. Afinal, a última, um menino de dez anos, magrinho, baixinho, sardento e ruivo, ganhou apenas um livrinho de contos sobre as maravilhas da natureza, lágrimas da sensibilidade, etc., sem estampas e até sem vinhetas. Filho da governanta dos meninos da casa, uma pobre viúva, era um pequeno muitíssimo encolhido e tímido, metido num pobre paletozinho de nanquim. Recebido o seu livrinho, andou muito tempo à volta dos brinquedos dos outros. Tinha uma vontade imensa de brincar com as outras crianças, mas não se atrevia; claro, já sabia e compreendia a sua situação. Gosto muito de observar crianças. São sobremodo curiosas as suas primeiras manifestações independentes na vida. Notei, pois, que o menino ruivo se deixava seduzir pelos brinquedos dos outros, sobretudo pelo teatro, em que ele se empenhava para representar um papel qualquer, a ponto de aviltar-se. Pegou a sorrir para os outros, a cortejá-los, deu a sua maçã a um pequeno gordo que já tinha o lenço cheio de presentes e até se ofereceu para carregar outro, só para que não o afastassem do teatro. No entanto, poucos minutos após um rapazinho arrogante deu-lhe uma boa surra. O ruivinho nem teve coragem de chorar. Logo apareceu sua mãe, a governanta, e ordenou-lhe não se intrometesse nos brinquedos alheios. O menino retirou-se para o salão onde estava a menina bonita. Esta o deixou aproximar-se, e as duas crianças entraram a enfeitar a suntuosa boneca.

Fazia já meia hora que eu estava sentado no caramanchão de hera, e quase adormecera ao zunzum da conversa entre o ruivinho e a menina dos trezentos mil rublos de dote, que se entretinham a respeito da boneca, quando de repente vi entrar no salão Julião Mastakovitch. Aproveitando a distração dos presentes com uma briga surgida entre as crianças, saíra do salão principal sem fazer barulho. Notara eu, poucos minutos antes, que ele mantinha animada palestra com o pai da futura noiva rica, a quem mal acabara de conhecer, explicando-lhe as vantagens de qualquer emprego público sobre os demais. Parou à porta, tomado de hesitação, e parecia calcular alguma coisa nas pontas dos dedos.

- Trezentos. . . trezentos – murmurava.- Onze.. . doze.. . treze… até dezesseis, são cinco anos… Façamos de conta que sejam quatro por cento, são doze… cinco vezes doze, sessenta; estes sessenta… bem, calculados por alto, ao cabo de cinco anos serão quatrocentos. Está certo… Mas naturalmente o malandro não os terá colocado a quatro por cento! Talvez receba oito ou até dez por cento. Suponhamos que sejam quinhentos, no mínimo, sim, quinhentos mil, na certa. .. o excedente gasta-se no enxoval, hum…

Acabou a meditação, assoou-se, e, indo a sair do salão, súbito avistou a menina e estacou. Como eu estivesse assentado atrás dos vasos de flores, não me pôde ver. Tive a impressão de que o homem se achava muito excitado. Seria o cálculo que operava esse efeito sobre ele, ou outro motivo qualquer? Não sei. Seja como for, o certo é que esfregava as mãos e não conseguia permanecer no mesmo lugar. Quando a sua agitação chegou ao cúmulo, parou um instante e lançou um segundo olhar, muito resoluto, à futura noiva. Quis aproximar-se dela, mas primeiro olhou em redor. Depois, como quem tem sentimentos criminosos, aproximou-se da criança nas pontas dos pés. Com um sorrisinho nos lábios, inclinou-se para ela e beijou-a na testa. A menina, não esperando a agressão, gritou assustada.

- Que é que você está fazendo aqui, bela menina?—perguntou ele em voz baixa.

E, olhando em torno de si, deu-lhe uma palmadinha no rosto.

- Estamos brincando…

- Com ele? – disse Julião Mastakovitch fitando o menino de esguelha.

E logo acrescentou:

- Escuta, meu amigo, por que não vais para o salão?

O menino fitava-o sem falar, de olhos arregalados. Julião Mastalovitch olhou de novo em redor e aproximou-se outra vez da pequena:

- Que é que você tem aí bela menina? Uma bonequinha?- Uma bonequinha – respondeu a criança de cara fechada, cabisbaixa.

- Uma bonequinha… Mas você sabe, gentil menina, de que é feita a bonequinha?

- Não sei… – cochichou a pequena, abaixando ainda mais a cabeça.

- De trapos, minha alma… Mas tu, meu filho, deverias ir para o salão brincar com os teus camaradas, – disse Julião Mastakovitch encarando o menino com severidade.

As duas crianças franziram a testa e agarraram-se pela mão. Não queriam separar-se.

- Sabe você por que lhe deram essa bonequinha? – perguntou Julião Mastakovitch baixando cada vez mais a voz.

- Não.

- Porque você é uma criança boa e se comportou bem a semana toda.

Perturbado a mais não poder, Julião Mastakovitch lançou mais uma vez um olhar em roda, e baixou a voz de modo que a sua pergunta, formulada em tom impaciente e embargada pela emoção, saiu quase imperceptível:

- Diga-me, gentil menina: você gostará de mim se eu fizer uma visita a seus pais?

Havendo proferido tais palavras, Julião Mastakovitch quis beijar a pequena mais uma vez; mas o menino, vendo-a prestes a romper no choro, puxou-a pela mão e, compadecido, começou, ele próprio, a choramingar.

Dessa vez Julião Mastakovitch aborreceu-se deveras.

- Vai-te embora – disse ao menino – Vai para a sala brincar com os teus camaradas.

- Não vá, não – protestou a menina. – Você é que deve ir-se embora. Deixe-o aqui, deixe-o – disse quase soluçando.

Alguém fez barulho à porta. Assustado, Julião Mastakovitch ergueu no mesmo instante o corpo majestoso. O menino ruivo, porém, assustou-se ainda mais do que ele, largou a mão da menina e, devagarinho, roçando a parede, caminhou do salão à sala de jantar. Para não despertar suspeitas, Julião Mastakovitch também passou à sala de jantar. Estava vermelho feito uma lagosta e, mirando-se ao espelho, parecia até envergonhado de si mesmo, talvez arrependido da sua sofreguidão. Teria sido o cálculo feito na ponta dos dedos que o arrebatara a ponto de inspirar-lhe, apesar de toda a sua seriedade e gravidade, um procedimento de criança? Aproximava-se de chofre do seu objetivo, embora este não viesse a tornar-se um objetivo real antes de cinco anos, no mínimo.

Acompanhei o respeitável cavalheiro a sala de jantar, e ali testemunhei um espetáculo curioso. Rubro de raiva e despeito, Julião Mastakovitch perseguia o menino ruivo, o qual, recuando cada vez mais, já não sabia para onde correr:

- Sai daqui! Que diabo vens fazer aqui, velhaco? Vieste roubar frutas, hem? Vieste? Fora daqui, patife! Vai, fedelho, procura os teus camaradas!

Espantado, o pequeno recorreu a um expediente extremo: foi esconder-se debaixo da mesa. Então o seu perseguidor, no auge da excitação, puxou do bolso o grande lenço de batista e, brandindo-o, procurou enxotar o menino do seu esconderijo. Este se encolhia caladinho, sem se mexer. Cumpre observar que Julião Mastakovitch era um tanto gordo: rapaz bem nutrido, corado, barrigudo, de pernas robustas, – em uma palavra, como se costuma dizer, redondo e forte como uma noz. Suava, enrubescia, arfava terrivelmente. Estava exasperado por um sentimento de indignação e, quem sabe, de ciúme.

Não pude conter uma gargalhada. Julião Mastakovitch virou-se e, a despeito de toda a sua importância, ficou mortalmente acanhado. Nesse instante, na porta oposta, apareceu o dono da casa. O ruivinho saiu logo do esconderijo e pôs-se a limpar os joelhos e os cotovelos. Julião Mastakovitch, com um gesto rápido, levou ao nariz o lenço que tinha na mão, seguro por uma das extremidades.

O dono da casa fitava-nos aos três, perplexo, mas, como homem que conhece a vida e a considera pelo lado sério, resolveu aproveitar a circunstância de encontrar-se quase a sós com o seu hóspede.

- É este o menino – disse indicando o ruivinho – que tive a honra de lhe recomendar…

- É? – respondeu Julião Mastakovitch, que ainda não voltara inteiramente a si.

- É filho da governanta de meus filhos – prosseguiu o dono da casa em tom de solicitação -, uma senhora pobre, viúva de um funcionário honesto; portanto, Julião Mastakovitch… se for possível. . .

- Mas não é!—exclamou sem demora Julião Mastakovitch. – Perdoe-me, Filipe Alexeievitch, é totalmente impossível. Pedi informações… No momento não há vaga, e, ainda que houvesse, já se tem dez candidatos, cada um mais qualificado que este… - Sinto muito… muitíssimo..

- É pena – disse o dono da casa. – É um menino bonzinho, modesto . . .

- Pelo que vejo, é um grandíssimo vadio, – estourou Julião Mastakovitch, com uma careta histérica. – Sai daí, menino. Que é que tu queres aí? Vai brincar com os teus camaradas — disse ainda, voltando-se para o ruivinho.

Não conseguindo mais conter-se, olhou para mim de soslaio. Por minha vez, não pude deixar de lhe rir deliberadamente nas barbas. Ele desviou de mim os olhos, e em voz bem alta perguntou ao dono da casa quem era aquele rapaz esquisito. Saíram os dois da sala cochichando. Vi que Julião Mastakovitch, ouvindo as explicações de seu hospedeiro, abanava a cabeça, meio desconfiado.

Ri a bom rir com os meus botões, e voltei ao salão. Rodeado de mamães, de papais e dos donos da casa, o grande homem explicava alguma coisa com muito calor a uma senhora a quem acabavam de apresentá-lo. Esta segurava pela mão a menina com quem, dez minutos antes, Julião Mastakovitch representara a sua cena no pequeno salão. Agora ele estava-se derramando em extáticos elogios à beleza, aos talentos, à graça e à boa educação da gentil menina. Manifestamente engodava a mamãezinha, que o escutava quase com lágrimas de enlevo. Os lábios do pai sorriam, o dono da casa alegrava-se com essas alegres efusões. Os próprios convidados tomavam parte no júbilo; até os brinquedos das crianças foram suspensos para não se perturbar a conversa. Era uma atmosfera quase religiosa. Logo depois, ouvi a mãe da interessante pequena, comovida até o fundo da alma pedir a Julião Mastakovitch, com expressões escolhidas, que lhe desse a subida honra de distinguir-lhe a casa com sua preciosa visita, e ele aceitou o convite com entusiasmo; enfim, ouvi os demais convidados, no momento da despedida, expandirem-se, como o exigiam as conveniências, em louvores comovidos ao rico negociante, a sua mulher e a sua filha, e principalmente a Julião Mastakovitch.

- É casado esse cavalheiro? – perguntei em voz quase alta a um conhecido que estava mais perto dele.

Julião Mastakovitch enviou-me um olhar indagador e feroz.

- Não – disse-me o meu conhecido, profundamente penalizado com a leviandade que eu de propósito cometera.

Passava eu, há pouco tempo, em frente à igreja de ***, quando um grande ajuntamento me despertou a atenção. Em redor falava-se de um casamento. O dia estava nublado, começava a chuviscar; entrei na igreja abrindo caminho através da multidão. Logo avistei o noivo. Era um rapaz baixo, gordo, bem nutrido, de ventre ponderável, muito enfeitado, que corria para todos os lados, se agitava sem parar, dava ordens. Enfim, levantou-se um murmúrio de vozes anunciando a chegada da noiva. Fendi a turba de curiosos e vi uma jovem de admirável beleza, para quem a primavera apenas começava. Mas estava pálida e parecia triste a linda noiva. Olhava distraída e tinha os olhos vermelhos, o que me deu impressão de lágrimas recentes. A severidade clássica de suas feições emprestava-lhe à beleza uma expressão algo solene. Através daquela severidade, daquela gravidade, de toda aquela tristeza, transpareciam os traços de uma criança inocente, algo de incrivelmente ingênuo, juvenil e ainda não formado, que parecia, sem palavras, implorar piedade.

Ouvi observar que ela mal acabava de completar dezesseis anos. Examinando atento o noivo, nele reconheci Julião Mastakovitch, que eu não via desde cinco anos. Olhei para ela… Meu Deus! Fendi a multidão outra vez para sair da igreja o mais breve possível. Ainda ouvi um espectador dizer que a noiva era rica, que tinha quinhentos mil rublos de dote… e não sei mais quanto para o enxoval.

- “Então o cálculo era justo” – disse comigo.

E saí para a rua.

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*Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821 – 1881) – ocasionalmente grafado como Dostoievsky – foi um escritor russo, considerado um dos maiores romancistas da literatura do seu país. É tido como o fundador do existencialismo, mais frequentemente por Notas do Subterrâneo.

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