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Com vocês: Bongolê Bongoró #2

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por Roberta

Melius Zapiranga Bongo tem o prazer de anunciar o segundo número do seu almanaque de quadrinhos, ilustrações e textos ilustrados. Acaba de sair a Bongolê Bongoró #2! Uma revista que, de tão independente, saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou.

Para quem se lembra do primeiro volume do almanaque Bongolê Bongoró, lançado em 2006, algumas novidades. Desta vez o Sr. Melius recebeu, em sua sede de Brasília, colaborações de várias partes do Brasil e do mundo e no final do exemplar você poderá verificar quem foram os autores das mais de 80 páginas.

Para quem não se lembra, a Bongolê Bongoró mistura ilustrações selecionadas que se misturam com colagens, quadrinhos e textos e mais textos. Assim como no primeiro número, o leitor encontrará uma série de histórias em quadrinhos que acontecem no Cine Pornongo, no trecho rosa, que possui o conteúdo adulto da revista.

Direto da sua sede, as colaborações foram dos brasilienses Stêvz e Gómez (vencedor da categoria tiras do último Salão de Humor de Piracicaba) e do Biu (paraibano radicado em Brasília, roteirista do quadrinho Blue Note). De outros lugares do Brasil, podemos destacar Allan Sieber, Caco Galhardo, Weaver Lima, Guabiras, Gabriel Renner, Edson Aran… Ah, ainda temos os portugueses André Lemos, João Cabaço, Edgar Raposo, Pepedelrey, o italiano Claudio Parentela e a estadunidense Madame Talbot.

Novamente o leitor encontrará os Diários Secretos de Melius Zapiranga Bongo, em que o sr. Z. fala sobre o que ele chama de processo criativo mercadológico. Falando nisso, quem quiser adquirir um exemplar é só enviar R$ 6,00 para a Caixa Postal 6116, 70740-971, Brasília/DF. A revista será distribuída em algumas cidades do Brasil, caso queira saber onde adquirir uma pessoalmente é só enviar um e-mail para meliusbongo@yahoo.com.br. Tenho certeza de que não vai se arrepender.

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Lojas interessadas em distribuir a mercadoria podem entrar em contato com o departamento de marketing em meliusbongo@yahoo.com.br

Preciso te deixar

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Os Haxixins*

*Videoclipe da música Preciso Te Deixar, editado de apresentações de Os Haxixins, grupo de garage rock paulistano que está lançando seu primeiro LP em vinil pela Groovie Records, de Lisboa. Contatos no endereço: www.myspace.com/oshaxixins.

Isso nunca me aconteceu ontem

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por Biu, Stevz* e Roberta

Um homem. Uma mulher. Um jogo de xadrez. Enquanto os ovos ficavam prontos na frigideira.

“Não se preocupe, sua vida é passageira”.

“Em média são 20 acidentes por hora”.

com colaborações de Endrigo e Gomez.

*Stêvz é Estevão Vieira, brasiliense, ilustrador e músico. Contatos pelo e-mail stevz_vieiron@hotmail.com

A gaivota cega (parte 3)

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por Raul Córdula*

Um bate-boca educado, mas severo, fez o guarda tirar a multa da zona azul que Betânia tinha levado. Em volta da Praça do Arsenal existe como que um mercado de multas de trânsito provocado pela excelência burguesa que lá freqüenta. Com os óculos no nariz Betânia foi dizendo:

- Ainda bem que você chegou. Desde ontem que quero lhe mostrar umas fotos de pássaros mortos tiradas nos arrecifes e uns detalhes de números e escalas dos navios, coisas estranhas, a cara da pintura que faço agora.

A manhã era deslumbrante, a Torre Malakoff brilhava ao sol e a Praça cheia de gente. Sentamos no lugar que restava, num banco protegido pela sombra.

Percebi sem surpresa, como num filme, como se o hoje fosse continuação do ontem, que o homem cego ocupava a outra ponta do banco. Desta vez, porém ele estava claramente cego, se compunha de óculos escuros, bengala e cachorro, vestia jeans, tinha um boné azul com o monograma N Y, calçava tênis antigos e usava uma malha branca escrita em bodoni vermelho: I am blind. Help me, Tank you. Ninguém poderia dizer com mais eloqüência que era cego, somente um cego como eu não tinha, ontem, percebido. E ninguém poderia proclamar com tanta elegância como sofria sua própria cegueira, como necessitava de socorro, como precisava do outro. O que me arrebatou, porém, foi a coincidência daquela frase com fatos de minha vida, com a memória que aquela mensagem aflorou em mim: uma antiga crônica de Geir Campos escrita em Nova Iorque, onde ele falava de um cego com uma tabuleta no pescoço onde estavam escritas exatamente as mesmas palavras. Mas o cego americano pedia explicitamente dinheiro com uma lata vazia de sopa Campbel na mão, esmolava em inglês. Inspirado no poeta Geir, há uns 40 anos escrevi as mesmas palavras num desenho que fiz em São Paulo.

Nosso cego falava para poucos e raros que algum dia na vida embarcaram na aventura de discutir a cegueira, denunciava com dimensão poética sua angústia, seu apelo e sua gratidão. Naquele momento ele gritava, silenciosamente embora, para mim e Betânia que, estupefata, acabara de ler sua mensagem na camisa. Com a atenção contida na posição das orelhas ele nos dizia que nos estava percebendo como um pescador chinês que conheci no lago de Itaipu pressentia o peixe antes morder a isca. Ele nos estava pescando com sua bengala e seu cachorro, fomos fisgados.

Fiquei meio sem saber o que fazer, não tinha trazido vinho, pensava tomar uns wiskys no 28. Mas minha conversa com Betânia supriria o transe existencial que a presença do cego provocava. Vimos as fotos, falamos de pintura, novas criações, esculturas que Paulo Andrade executava para mim. Falamos da Torre Malakoff e sua função cultural, da história do Recife, das ruas e das calçadas. A cada momento da conversa, quando meus olhos viajavam em derredor e esbarravam com o rosto do cego, seu sorriso giocôndico denunciava sua atenção. Ele ouvia com detalhes nossa conversa embora estivesse longe demais para isto.

Frases pintadas na camisa, tabuletas com frases/títulos, pichações, grafites, mensagens gráficas, tudo isso faz parte da minha pintura. Desde meus primeiros experimentos a garatuja, a escrita, a caligrafia reivindica espaço no meu desenho. No pique da nouvelle figuration que invadiu o mundo como a pop art francesa, quando o Rio de Janeiro era a capital da cultura brasileira, eu me encantava com a arte mostrada pela Galeria Relevo, onde vi um dos artistas que mais me influenciaram, o espanhol Juan Genovés. Num de seus desenhos havia um homem com uma tabuleta no pescoço, nela seu próprio rosto. Acompanhando sua obra, a de outro espanhol chamado Aroyo e dos argentinos Berni e Segui, me sentia seguro caminhando na aventura da vanguarda que falava brasileiro, portenho e castelhano. Em 72 pintei minhas últimas figuras, uma série de guaches em memória do meu avô Vicente Trevas. Esta série iniciava com um desenho de um homem de costas, no lado esquerdo, e de frente, no direito. De frente seu rosto era felino e numa tabuleta pendurada no pescoço se lia: “Meu Avô Matou Uma Onça”.

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*Raul Córdula é pintor, paraibano, fundou o Museu Assis Chateaubriand de Campina Grande, onde foi diretor; foi supervisor da Casa da Cultura de Pernambuco; hoje e responsável pelo intercâmbio da Casa França-Brasil e representante da Associação Cultural de Marselha. Assina Córdula

A gaivota cega (parte 2)

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por Raul Córdula*

De repente um alemão maluco, dono de uma cervejaria na Bom Jesus, soltou um morteiro de três tiros. Uma revoada de pombos cobriu o céu revoando em Pollock, os pardais dispararam de várias direções, cruzando-se em mondriânicas linhas retas e as gaivotas fugiram em suaves curvas, como um quadro de Matisse da fase do jazz. A revoada lembrou-me versos do Eugênio de Carvalho: “Horas, horas sem fim, tristes, profundas. / Esperarei por ti até que todas as coisas sejam mudas, / até que uma pedra irrompa e floresça, / e até que um pássaro me saia da garganta / e no silêncio azul desapareça”.Parecia que eu não ia agüentar esperar muito por Betânia, pois tinha na minha pasta duas taças, uma garrafa de um bom vinho de Mendosa e o meu saca rolha de cabo esmaltado que ganhei de meu belo e perfumado primo José quando ele chegou, aparvalhado, de Paris.

Minha garganta implorava um gole de vinho e eu me sentia sozinho demais para beber naquele banco sob a luz dourada da tarde. Do outro lado, em frente a mim, havia um senhor sentado, e ninguém mais, além dos passantes. Animado e solitário, resolvi abrir o vinho. O senhor, também solitário, mas não tanto. Ele tinha um cachorro, um flexível e adestrado Pastor Alemão que explorava os cheiros da praça e atendia de forma curiosa a uns quase silenciosos e invisíveis silvos que seu dono emitia. Era um homem estranho, não havia dúvida, apreciei sua bizarria. Vestia um conjunto de brim branco gelo dos tempos da calça lee, com o casaco fechado na cintura e gravata vermelha escura sob impecável colarinho branco. Suas mãos repousavam sobre a empunhadura de prata de um bengala, o que me fez pensar que era um homem velho, mas depois, olhando-o atentamente, percebi que não era assim tão velho, tinha, talvez, a minha idade, e era magro com as mãos finas cruzadas sobre a bengala. Pensei que ele prestava atenção em mim e na minha bebida e me preparei, na minha proverbial timidez, para oferecer-lhe a taça que esperava por Betânia, pois percebi um meio sorriso enigmático, só que depois vi que a direção dos seus olhos não apontava para mim. Neste ponto uma mulher apareceu dirigindo-se a ele, uma bela mulher que vestia negro e tinha os braços nus, lindos braços torneados. Cabelo curto, bem cortado, e um fio com pérolas em volta do pescoço. O homem chamou seu cachorro, pôs-lhe a coleira e a mulher segurou-lhe pelo braço ajudando-o a levantar-se. Apoiado na bengala e conduzido pela mulher e pelo cachorro ele saiu da praça. Foi então que percebi que ele era cego. Que bobagem eu estava preocupado com a atenção dele, não com sua presença. Envergonhei-me um pouco de minha presunção. Revi os pombos que voltavam calmos aos seus arrulhos, os pardais que se engavetavam novamente nas rachaduras da calçada, senti a ausência das gaivotas. E Betânia não veio.

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*Raul Córdula é pintor, paraibano, fundou o Museu Assis Chateaubriand de Campina Grande, onde foi diretor; foi supervisor da Casa da Cultura de Pernambuco; hoje e responsável pelo intercâmbio da Casa França-Brasil e representante da Associação Cultural de Marselha. Assina Córdula.

No ar, Sirva-se Records

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por Roberta

“A Sirva-se Records é uma empresa underground, virtual, sem fins lucrativos e interessada tão e solenemente na revolução número nove, capítulo um, versículo dezessete, o que para não iniciados significa ‘coisa sem futuro’, afinal, a julgar pelas manchetes do hoje, o amanhã nunca é lá essas coisas, né não?”

Esse é o lema da Sirva-se Records, loja fundada em João Pessoa, na Lagoa, no centro da cidade. A proposta era a venda do acervo de CDs do proprietário. Por pura sorte a idéia não pegou e a loja fechou em poucos meses.

Agora a Sirva-se Records ressurge, em ambiente mais apropriado, com a idéia de socializar o acervo do proprietário, a mesma inicial, mas desta vez ao distribuir cópias a quem interessar, como acontecia com aquelas fitas gravadas nos anos 80.

Quem for contra, por princípio, este tipo de prática, pode ao menos ler os textos, esses autorais, que de alguma forma falam dos discos disponíveis. Detalhe: o link está colocado em alguma palavra no meio do texto. O nome do disco pode ser visto na capa exposta.

Então, vá lá, em sirva-serecords.blogspot.com, e bom apetite!

(ah, a logomarca é do Stevz)

São Paulo – pessoas.

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por André

Atração e repulsão. Proporcionalidade. Centro (marisa e cores), Radial Leste (alturas) e Itaim Bibi(guarda-chuva).

Um morroquino impaciente com o périplo em Madrid

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por Carlos Dowling*

Madrid, 27 de junho de 2007; 13h20min, procurando paragem para almoço, eis que volto a avistar um pequeno restaurante marroquino que me chamara a atenção no dia anterior, quando parecia fechado. Agora as portas estavam entreabertas, assim que adentro o recinto, vazio. Logo dois cozinheiros titubeando espanhol gesticulam para mim, “- Que haces, solo abrimos a las una e media.!.”, respondo “- Pero estaban abiertas las puertas, y que horas son?”, o outro cozinheiro marroquino “- 13:21, y el camarero a salido para comprar pan y no regresó…”, “- Bueno, voy caminar diez minutos y vuelvo…”.

Meia hora depois volto, o restaurante está deserto, a não ser pelo garçom, que deve ter voltado com os pães. É um tipo grande, meio bruto, e me ignora complacentemente. Uso a mais tenra e habitual gentileza, em vão, a cada come e bebe pedido deixa de só ignorar e passa a expressar certa rudeza, com estrépitos de breves caretas de uma insolência blasé.

Depois chega uma mulher bonita, e senta em um ângulo de onde vejo as sombras de seus cabelos, e ouço sua conversa com o aparente dono do restaurante, que acabara de chegar, logo postando dois pirex de patês de berinjela e grão de bico como entradas para meu almoço, visto que o garçom deixara só azeitonas e o afamado pão. Falam sobre cinema, e filmes, e Hollywood e Harry Poter, pelo que logro entender trata-se de uma atriz, quiçá algo famosa.

Acabo o cous cous de frango, e logo começo a tracejar estas linhas, até que a atriz sai carregando uma sacola bem apessoada, e finalmente pela primeira vez o garçom me dirige a palavra, “- Chileno?”, tiro o olho do bloco de notas de hotel onde escrevo, “- No, brasileño, mi padre es argentino blábláblá vivi en México blabla…”, “- No, argentino no suena, quizás chileno por el accento.”

Começamos uma conversa das mais lúcidas dos últimos dias:

- De onde eres?

- Marruecos.

- A cuanto tiempo vives acá?

- 26 años.

- Casí mi edad, tengo 29. Te gusta españa?

- Sí, sí. Pero es como no tener sítio, lo sabes, la segunda clase de la globalización.

- Que queréis decir?

- Eso de tantos lugares y desplazamientos, y al fín estás solo, sin casa, sin tierra. Desde siempre. La globalización en hecho es el interés del flujo de capitales transnacionales, eso lo es, de resto nada.

- Y se olvidán que hace menos de un siglo el camino era el opuesto, de Europa y sus tantas guerras y crisis y distintas misérias, hacia América, África, Ásia, y sus distintas misérias. Y la esplotación a tope, siempre, de todos lados.

- Decierto, pero para el status quo no le interesa que se detengam a la memoria y se fijen en eso de los flujos invertidos, mismo la mas corta, el capital sembra la memória de pez.

- Se apropria de todo. Como eso ahora de la semana del orgullo gay, tiene su importancia de resistencia y compensasión por tantos años de tanta opresión, pero se invierte todo, se capitaliza, se agota.

- Los dueños de hotelas y restaurantes del centro de Madrid en un discurso hipocríta y machista gritan todo el año a los cuatro vientos ‘maricones gilipollas’. Pero abren avidaz cajas registradoras, que suenan dulces cunas de monedas. Lo más grave és que, aun que las calles estean llenas, en fiesta, el placer no es colectivo, están todos solos mientras bailan.

- Hedonismo, que podría bueno sí llevara a otro sítio, pero no, te deja plantado entre los escaparates…

(…)

- Estube en Valencia, me gustó muc…

- És la ciudad más fea de España.

- Pero me a gustado…

- Como se pueden quedar tanto tiempo de espaldas al mar? Solo lo vieron ahora, hace un par de decadas.

Nesse momento localizei a minha simpatia por Valencia, parece muito com João Pessoa e seu medo de tanto mar.

(…) – Puedes traer la cuenta?

(…) – No hace falta el pasaporto, es solo cuestión burocratica.

- Hay cosas más importantes, no?

- Eso nada és.

- Gracias.

- A ti.

Saio pela Calle de Las Farmacias, perto de Chueca, o calor da siesta clama aos poros.

* Carlos Dowling é cineasta, paraibano, dirigiu o curta “A Sintomática Narrativa de Constantino”.

A gaivota cega (parte 1)

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por Raul Córdula*

Tenho visto gaivotas. Outro dia em Olinda, na curva da Praça do Carmo, avistei um bando delas voando para o norte. Estranho! As gaivotas são de outras praias, os pássaros daqui são pernaltas: lavadeiras, maçaricos; gaivotas são de longe. Mas tenho visto algumas perdidas por aqui. Noite dessas, na Rua do Bonfim, equilibrando-se numa cimalha da parede da igreja, lá estava uma gaivota assustada, estranha, tentando compreender o mundo diferente em que se havia metido. Cagara no barroco da fachada e sua merda fedia a esperma podre, peixe estragado, mênstruo jogado no lixo. Parecia, porque na verdade eu não senti o fedor, passava rápido, de carro. Mas pude ver, quando virou seu pescoço ao perceber minha presença, que o olho do outro lado de sua cabeça estava vazado. De um lado um olho sem olhar, redondo, vendo o mundo ameaçador sem mostrar nenhuma emoção, do outro um olho cego que, embora nada visse, expressava algo como um olhar de angústia e sofrimento. Lembrei-me que em Lisboa gaivotas e pombas desenhavam o céu com as formas e movimentos de seus corpos alados numa sensação de “à vontade”, de total desprezo do mundo dos homens, em frente às correnteza do Tejo.

Não somos Lisboa, tampouco Veneza, muito menos Amsterdã, mas noutro dia, tendo marcado um encontro com Betânia na Praça do Arsenal para beber vinho, avistei outras gaivotas voando sobre as estruturas dos mastros e das amarras dos navios do porto, e mais uma vez me senti em Lisboa. Era de tarde e eu esperava minha amiga que queria me levar à Torre. Percebi aos poucos outros pássaros. Pombos e pardais que conviviam com as gaivotas, cachorros e gatos que cruzavam a praça. Parecia que os animais participavam de uma cumplicidade à margem da vida dos homens, que se viam entre eles, que sabiam dos seus hábitos e guardavam distância e respeito entre si. E respeitavam os homens e suas manias.

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*Raul Córdula é pintor, paraibano, fundou o Museu Assis Chateaubriand de Campina Grande, onde foi diretor; foi supervisor da Casa da Cultura de Pernambuco; hoje e responsável pelo intercâmbio da Casa França-Brasil e representante da Associação Cultural de Marselha. Assina Córdula.

São Paulo – texto e contexto

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por André

São Paulo – texto e contexto. Camada sobre camada. Mensagens para quem quiser ler no Centro (luta e internet), Itaim Bibi (shit) e 23 de Maio (gambiarra).

Experimentais

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por Antonio Netto*


Acrílica sobre tela – dimensão 25 x 25 cm
2007


Acrílica sobre tela – dimensão 25 x 25 cm
2007


Acrílica sobre tela – dimensão 25 x 25 cm
2007

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* Antonio Netto é paraibano, artista plástico e produtor cultural.

Obituário

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por Biu

1. Com os dois pés na cova: Daniel, o nome dele. Abordou-me na entrada daquele lugar e informou-me que o fim está próximo, ele me pede desculpas mas precisa me dizer isso porque me ama e quer que eu me salve, ele tem lágrima nos olhos, ele sabe que eu sei do que ele fala, eu tento não olhar no seu olho mas ele fica se reposicionando com passinhos curtos na minha frente e ficamos um bom tempo nos fitando enquanto ele destila suas verdades. Apesar de ele ser bem mais velho que eu ele tem bem mais energia, então ataco logo com um conselho de que ele tome cuidado com o que vai fazer com tanta energia, e ele me pergunta como assim. Bem, talvez esses pensamentos lhe tirem do prumo da vida quotidiana… Mas eu sou o mais normal dos homens, ele me responde. Não me entenda mal, não quero vender-lhe nada, não represento nenhuma religião, nenhum partido politico. Por que você acha que morremos? Porque nascemos, respondo perguntando. Nós não nascemos para morrer, mas há quem insista e esses morrerão, e falta pouco. Muita gente vai morrer para que o Cristo viva, mas dessa vez serão as pessoas certas, não se preocupe. Guarde esta data pois eu lhe lembrarei dela daqui a um milhão de anos, Daniel diz.
E naquela noite, quando dormi e o tempo acabou para mim, eu não sei dizer.

2. Com um pé na cova: Mas acordei feliz e disposto hoje, espero não ser atropelado ou coisa parecida. Aqui tem muito desses loucos. A quantidade de pessoas falando sozinhas nas ruas, você não iria acreditar. Muitas delas acabam te abordando, já vi piores, uma vez levei um tapa e de vingança paguei outra dose ao meu agressor, então, como dizia, há muitos loucos por aqui, valha-me Santa Daphne Padroeira dos Loucos, Possessos, Sonâmbulos, Endemoninhados e Eplepticos, faltou alguém aí??
Pois é, só eu, eu estou só, estão todos contra um, mas jamais irão me pegar com vida, ha ha ha.
Jean Baptist de Oliveira, 16, 06, 73 a 15, 05, 05.

Spiralling in São Paulo

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por André

Clip gravado numa manhã de maio de 2007, em São Paulo. Música acidental (e incidental) Spiralling de Antony and The Johnsons.

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