RSS

Arquivo da categoria: TEXTO

Poemas

por Antonio Souza*

A Rita

(vídeo de Mário de Almeida)

.

Xícara 

algo absurdo sem explicação
de uma realidade concretíssima.
uma xícara vazia em uma mesa
solitária e abandonada por especulações metafísicas .
Branca
objeto sem uso, contendo imponderâncias
sem perguntas. Exercendo a presença
diante de niguém.
Branca, vazia e xicara
comunicando disfunções.
Aberta
esquecida em uma mesa,
uma xícara em desuso,
sem deuses para
tomar dela o conteúdo

Flor

Vasto o botão guarda a
flor guarda o tempo guarda a
vida guarda
guarda a flor guarda o
tempo guarda a
espera guarda o mistério não
guarda flor exposta em
gozo o tempo presentificado
tudo amostra em
superfície a mação o corpo
a semente o sêmen
Adão guarda no
passado as horas
não esperam
a vida semer em tudo o
ovo espera os
olhos esperam
tudo espera o
término da tempestade na
luz da tempestade
a satisfação e a glória
de sobreviver

.

*Antonio Souza é poeta e, sobre si, diz: “nasci em Pernambuco, há algum tempo, a não alguns poemas que tenho a pachorra de fazer  sou a pessoa mais sem graça do mundo  e não gosto de falar disso”.

O seu nome infeliz

por Adriano de Almeida*

Dieguinho de cara vincada, solitário mas ria. De muito.

Aos doze, prensou-me na sala de aula – mais alto, mais forte, mais velho que eu. Eu era maluco e enfezado e cuspi como um bicho e ele foi pro seu canto.

Amigo? Jamais. Na verdade eu sentia era medo.

Teve jogo de bola uma vez e marcamos dois gols, por instantes virando parceiros, mas o tempo arrastou Dieguinho.

As bocadas, os doidos, as tretas, uns rolês muito estranhos no bairro. Dieguinho afastou-se da escola, e a escola afastava-se dele.

Pude vê-lo duas vezes.

A primeira uma terça gelada, ele e os manos, num golpe sem sorte, levaram-me quinze reais. Meu salário, Dieguinho, cacete!

Já na febre do rato ele viu: era eu, o sujeito da escola, o magrelo que ele apavorava, com quem dividiu breve paz.

Era tarde, os seus manos gritavam. O dinheiro miúdo escoado na mão. Essa merda de vida, Dieguinho, roubando o que outros, branquinhos, retinhos do bairro ganhavam, trabalhando pra limpos poltrões.

A segunda foi constrangedora. Eu já tinha mais de vinte anos, dava aulas num curso noturno, e a chamada acusou Dieguinho, que escondeu de vergonha e sumiu.

Uma outra existiu, a terceira. Mas não era o menino Diego. Era outro, um zumbi gaguejante, implorando em molambos trocados, pra pagar sua pedra azarada.

Dieguinho, cacete, que vida, eu me sento a essa hora noturna, pra gravar o seu nome infeliz.

.

* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura.

O colecionador de lustres

por André e Roberta

Antes de entrar em casa, cumpriu o ritual. Arrastou os pés pesadamente no carpete do elevador e bateu no paletó para tirar o pó da rua. Subiu. Em frente à porta, passou o dedo no batente, exatamente sobre uma mancha já gasta do verniz. Tirou do bolso um saquinho e, de dentro dele, um raibam de lentes arranhadas. Colocou os óculos antes de abrir a porta, tocar no interruptor e ser iluminado pela luz de mil sóis.

Já não havia mais espaço, ele sabia, mas não conseguia abandonar seu hábito de garimpar de loja em loja uma peça nova. Fazia seu percurso quase sempre aos sábados, mesmo os mais chuvosos.

Tinha seu lugar favorito para refeições nesses dias. Ao recomendar o restaurante para um colega, disse “sempre almoço lá quando compro lustres…”. Alguma coisa no ato de escolher luminárias lhe abria o apetite. Talvez o exercício voyeur de namorar as peças antes da transação. Talvez a luta para conseguir atrair a atenção de um vendedor no meio de tantos clientes medíocres. Talvez a própria aflição da negociação para que as parcelas – somadas às de compras anteriores – não aniquilassem a pensão de aposentado.

Sim, porque tinha a infelicidade de ter uma atração especial por lustres de cristal, como aquele que viu em sua única visita ao Teatro Municipal, ainda menino.

Seu prédio era antigo e o pé direito, altíssimo. Mesmo assim, era necessário engatinhar em diversos pontos da residência para explorar os espaços ou passar de um aposento a outro.

As peças tentavam subjugar umas às outras com sua imponência elaborada. O resultado era um espetáculo ofuscante e dífícil de ver de perto, desconfortável não só pelo brilho intenso, mas pela falta de espaço para quem quisesse fazê-lo.

O teto do apartamento já estava forrado de gotinhas de cristal em todos os formatos possíveis. “Acho que ainda faltam muitas formas para completar minha coleção”, pensava ele, na esperança de que fosse infinita.

Já de quatro, lembrou do primeiro lustre que trouxe para casa e que já não conseguia localizar no meio de tantos outros: um pequeno regalo que encontrou na volta para casa, pensando na sensação aconchegante do braço da mãe que o agarrava durante o fortíssimo, enquanto olhava para o caleidoscópio que se formava no teto.

A bem da verdade, não passava de um caco de vidro com um pequeno furo pelo qual passou o nylon e amarrou no estrado embaixo da cama, para onde fugia com uma lanterna durante temporais de trovoadas ou quando havia briga em casa, o que viesse primeiro. Crianças, enfim, têm seus caprichos. Tentou inutilmente localizá-lo uma vez mais, mas um simples elevar de cabeça era suficiente para resvalar nos pingentes mais baixos, fazendo tremer o delicado móbile e criando uma sinfonia de tilintares que dizia: “Tens certeza de que queres me destruir por tão pouco?”. Lustres, enfim, têm seus caprichos.

Ele já os conhecia todos. Com as costas pregadas no chão, todos os dias, se dedicava a limpar uma de suas preciosidades até onde seu braço estendido alcançava. Com uma flanela imobilizava a pedrinha e com outra tirava o pó. O trabalho não era tão árduo, tampouco se preocupava com o topo dos lustres, pois as janelas viviam fechadas e devidamente vedadas com grossos panos negros. O ataque histérico que a vizinha do prédio da frente teve no começo da coleção ainda o fazia rir: a luz que não cabia mais na sua sala invadia a da senhora e impedia que os peixes dormissem, e acabou matando de estresse um atrás do outro.

Sentiu uma estranha sensação, um arrepio na boca do estômago. Algo parecia querer lhe dizer para tomar cuidado; com o quê, não sabia. Pela primeira vez olhou para aquele emaranhado de fios e pedrinhas como alguém de fora, como se aquilo não fizesse parte dele. Mais um arrepio tomou o corpo. “Sou estranho”, pensou, e rapidamente voltou a se sentir integrado ao aconchego dos reflexos que apenas seus olhos treinados conseguiam distinguir.

Pensou ter escutado um ruído que vinha do teto, esperou que o tilintar cessasse para apurar o ouvido, mas já tinha passado.

A mãe, lembrou de novo, agora vividamente, tinha decidido sair de casa, levando o garoto que ele ainda era, naquela mesma semana em que viram pela primeira vez um lustre daquela magnitude. Ele já não sabia bem se foi na saída mesmo do teatro que soube, também não fazia diferença. A angústia só o devorou por completo no dia em que teve que deixar seu “cantinho feliz”. Era meio bobo, ele sabia, mas era assim que ele chamava. Lá estavam todos os seus amigos, era um garoto de imaginação fértil.

Do universo criado para se proteger do mundo, só restou o lustre do teatro que inventou e que tinha um nome francês, claro: la maison de mille feux.

E assim, se acabou a infância. Longe da segurança financeira do pai, foi morar num cortiço e começou a trabalhar costurando sapatos com a mãe. Na mesma época, desenvolveu uma quase incurável insônia: no escuro, enrolado como um gato sobre o colchão ao final de um estafante dia, até conseguia relaxar e esquecer as dores nas mãos causadas pela esforço de furar couro com grossas agulhas. A convivência com o soquete que pendia em fios coloridos do teto com o bulbo nu já não era tão amistosa. Aquele olho cego, buraco negro, impedia a chegada do seu sono, pousado de ponta-cabeça como um corvo telepata. Dormir? Nunca mais.

“Por que os dias passam tão rápidos e as noites tão lentas?”, pensava naquele misto de dormência e vigília. Nesse estado, foi invadido pelos hormônios da puberdade, pelo conhecimento enciclopédico adquirido na escola que, com certo custo, frequentava e pela lembrança acolhedora do seu lustre. Passou ginásio. Passou colegial. Passou o técnico. Passou o superior. Passou no concurso público. Gastou o primeiro salário todo no aluguel de um apartamento e na loja em que se tornaria habitué. Comprou sua primeira luminária de verdade: um modesto globo de vidro, leitoso o suficiente para apagar a visão macabra e garantir a ele um sono tranquilo. Agora tinha seu próprio quarto e podia dormir com a luz acesa – para o orgulho da mãe. A pobre mulher continuou, até a morte, acreditando que o filho dedicava suas noites aos romances russos ou ao estudo da Bíblia.

Poderia ter se tornado terapeuta holístico, pensou um dia. Uma colega de trabalho falou animada sobre o poder dos pêndulos e achou que se tratava disso sua coleção. Ele riu, sem graça, como se estivesse concordando. “Minha casa contém um enorme poder de cura”, divagou sozinho. Ficou imaginando as doenças que não teve pela imensa quantidade de cristais que purificavam as energias de sua casa. “Purificam minha alma”, suspirou.

Uma conexão física tinha se estabelecido e é bem possível que não fosse recente. Mas ele só sentiu os efeitos no seu corpo depois desse momento.

Como trabalhava num órgão público, tinha horários rígidos e os cumpria sempre o mais pontualmente possível para chegar logo em casa. Tinha medo de ser acometido por alguma doença grave se ficasse muito tempo longe daquele emanar energético.

Começou, então, a se gabar da boa saúde que tinha em função dos seus hábitos saudáveis fora do trabalho, falava para um colega ou outro, mas nunca deixava claro do que se tratava. “Cada um que descubra seu próprio caminho da vida eterna”, disse baixinho no canto, depois de desconversar quando alguém perguntou de um jeito mais direto.

Contou os dias até a aposentadoria. A partir daí, minimizou o quanto pode suas saídas de casa, como a de hoje, em que chegou com mais um exemplar nas mãos.

Procurou um lugar para instalar este modelo, que não era grande, pois já estava poupando o espaço quase inexistente. Foi quando o arrepio voltou. Se esgueirou pelo primeiro aposento. Não havia uma só clareira. Mentalmente reconstruiu a planta do apartamento. Sala de estar, tomada. Cozinha, tomada. Banheiro? Bem, havia o espaço sobre o chuveiro, mas não era aficionado a ponto de abrir mão da higiene para favorecer sua coleção. Não era louco. Então lembrou-se do quarto e do vão sobre a televisão, um pesado modelo de tubo – possivelmente o último a sair com aquele seletor de canais com engrenagens. A nova peça era modesta, sim, mas não menos comprida. Em vez das gotas, o lustre era composto de longos tubos de vidro ligados em cascata.

Desligou o aparelho da tomada e deitou-o sobre a tela em um cobertor. Esse era o único modo de arrastar aquele trambolho para fora de casa sem tocar em absolutamente todos os cristais mais baixos, mas apenas em alguns. No caminho em direção à porta, o chiado do roçar da coberta se mesclava ao coral de estrelas, pianíssimo. Já fora do apartamento, não sabia o que fazer com a televisão. Cogitou o trabalho de levá-la para o porteiro e a luta que seria vencer a estreita porta pantográfica do elevador. Desistiu. Puxou o restante do fio que ainda se estendia pela sala, empurrou a TV para fora o bastante para voltar a se agachar e bateu a porta, deixando para fora o último contato que tinha com o mundo. Uma pena, pois naquele momento o telejornal noticiava um dos mais devastadores tremores de terra.

Com os pensamentos tomados pela arquitetura do plano para pendurar o novo lustre e o caminho de limpeza aberto pelo cobertor, não viu a fina camada de poeira que caía do teto. E as trepidações do prédio também não se fizeram sentir. Estranhamente, nem os cristais dos cômodos cantaram.

De passagem pelo corredor, o colecionador pegou a escada que repousava na horizontal e a levou para o quarto. Ao chegar, ergueu-a lentamente para alcançar o teto, apoiando-a na parede. Naquela altura da vida, não se faziam necessárias novas perfurações. O cantinho que sobrava era uma plantação de buchas dos mais variados calibres. Talvez algum dia aquela vaga tinha sido ocupada por outro, mas era impossível precisar: um novo lustre seria acrescido ao universo. Familiar à tarefa repetida algumas centenas de vezes, subiu seguro. Assim que apoiou a base da luminária e elevou a mão para apertar os parafusos, o céu lhe agarrou.

O forro do apartamento inteiro – desgastado por anos de abusos – cedeu, criando uma chuva de estrelas cadentes. A enxurrada lavou a escada e o colecionador. Se pudesse falar, contaria do quase orgasmo que teve no milésimo de segundo entre o início da ação da gravidade e a sensação de flutuar em la maison de mille feux. Porém, da luz fez-se a escuridão. E dos finos fios que mantinham as constelações, uma rede emaranhada que lhe tomou todo o corpo. Quanto mais tentava se livrar do abraço, mais os nós se apertavam. O rosto não passou ileso. Um resistente cordão de nylon cruzava sob a mandíbula, mantendo-a fechada. Big Bang ao inverso sem socorro. Fim.

Graphic novel de ressonâncias

por André

Na minha frente, um sujeito da produção tentava convencer o apresentador Ratinho a proibir um striptease em pleno horário nobre até ser literalmente arrancado do palco por uma gigantesca mão de macaco à King Kong. Na minha direita, vazava uma música árabe. Na esquerda, guitarras e sapateados flamencos. Levemente incomodado e sentado num sofá de uma academia de dança, no meio daquela zoada, decidi encarar Aparecida Blues, a nova graphic novel de Biu e Stêvz.

Logo nas primeiras páginas li as frases “ ‘Se o mundo fosse sinusoidal, um grande conjunto de ondas pulsando na mesma frequência, não haveria música’ / Isso significa que é preciso que haja todo tipo de gente no mundo para fazê-lo girar / Ao canto do caos, onde todas as faixas são possíveis, os cientistas chamam de Ruído Branco: o som do mar”. E descobri que estava no lugar certo e na hora certa. Avancei algumas páginas e comecei a me envolver com a história de Alaor, uma calavera trompetista à procura do amor e suas teorias jarmuschianas sobra a capacidade do mundo reverberar ideias / sentimentos. Eu estava no meio da reverberação.

A sensação não durou muito: Juju acabara de sair da aula de dança e voltaríamos para casa. Apresento, portanto, minha esposa porque ela será importante para essas observações que se seguem. Chegamos em casa, esquentamos o jantar já meio tarde da noite e entre uma garfada e outra ela elogia o silêncio daquele momento. Até então, Juju só tinha lido a capa de Aparecida e certamente estava longe de saber dos paralelos que a trama faz com o comportamento físico do som. Acabamos de comer e ela começou a folhear. Aliás, mais do que folhear, foi sugada pela história, tanto que ultrapassou o ponto em que eu tinha parado.

Pimba! Outra ressonância com o livro e a belíssima citação de José Miguel Wisnik: “Simplificadamente, a fuga é uma forma em que um tema melódico é apresentado por uma voz e retomado sucessivamente e a cada vez por outras, de modo que se instaura um tecido de semelhanças (ou imitações) defasadas, em que as vozes parecem se perseguir sem nunca coincidir, a não ser no acorde final”. Lá estava a Juju em fuga nas páginas de Aparecida Blues e eu a persegui-la, como um nerd que não quer ficar pra trás da novidade ansioso para também ler.

Resignado, deixei-a na sua atividade, enquanto esperava na sala! Ah, sim, ela não conseguiu nem sair da mesa… os olhos fixos nas páginas. Leu numa sentada e com olhar iluminado me devolveu. Veredito: “adorei”, confirmando que eu também não conseguiria adiar a tarefa por mais um dia. Mesmo pingando de sono, cheguei ao fim da história e a Ju, quase capotada ao meu lado no sofá: o acorde final.

O livro de Biu e Stêvz me fez pensar um tanto. A história é recheada de referências – terei visto o Robô Sensível do Liniers e o carro do Barão Wrangel do José Carlos Fernandes? – que permitem delinear muito bem o repertório dos autores. O repertório, a desenvoltura de brincar com coisa séria e a inventividade. A todo momento usam recursos visuais pouco usuais nos quadrinhos, belas diagramações e soluções inteligentes pro roteiro, amarrando apenas pontas soltas que merecem ser amarradas e deixando outras para a cabeça de cada um.

A história e os desenhos permitem um mar de interpretações, mas não vou deixar as minhas. Não agora. Vou deixar assentar. E o que é melhor: não vou influenciar com minhas reverberações as reverberações dos futuros leitores. Só adianto uma coisa. Cartola estava errado e Alaor, certo! O mundo não é um moinho!

.

Informações sobre a publicação (que é uma coedição Beleléu e Edições Facada) em:

Blog: http://aparecidablues.tumblr.com/

Facebook: http://www.facebook.com/aparecidablues

Twitter: http://twitter.com/aparecidablues

A Sete Palmos

por Michel Aleixo*

“Sabe o que está faltando? Gente vomitando no palco, quebrando guitarra, os maus comportados. No fundo são todos um bando de Sandys. Tudo cai no ridículo muito cedo e é todo mundo muito bem comportadinho, muito politicamente correto. Acho isso meio sacal”

Guilherme Arantes, grimório vivo do pop


Não faz nem uns 700 anos, que bombava na Índia setentrional uma balada chamada Sati. Nesse ritual sagrado do hinduísmo, a viúva se atirava na pira funerária do falecido no ápice da cremação. Imagine você Comandante! Mas isso era o barato da época. Ao saber disso, tua glândula pineal já lhe irradia termos como barbárie ou misoginia. Mas, tenha em vista que relatos históricos dizem que se tratava de um ato sublime de devoção espiritual e não uma submissão do corpo carnal. Algo como o verdadeiro Nirvana, my friend. Diga aê!

O enterro dos indies vem aí. E é desnecessário dizer que vai ser um sati daqueles. A pira será acesa em dois funerais distintos. Um em cada lado dos trilhos do trem. Sábado, 20 de Agosto, Valdez, Mechanics e Zefirina Bomba esperam os devotos do ódio no Cult 22 Bar, Lago Norte. No domingo, 21, River Phoenix, Valdez, Mechanics, Galinha Preta e Zefirina Bomba queimam as roscas que ainda faltarem no Bar da Toinha, Samambaia. A etiqueta da ocasião sugere perfumar-se com colônia de barbecue ou óleo de peroba. Ajuda bastante o processo.

A convocação está feita. Os indies estão se espalhando depressa. Mais rápido que um compêndio de lados B do Radiohead no megaupload. É seu dever cívico honrar as calças fora de moda que veste e ajudar a erradicar esse mal. Reúna o maior número de hipsters que encontrar nas baladinhas fru fru da cidade e leve-os aos funerais supramencionados para dar uma boa lição do que é rock a esses almofadinhas. Dizem que uma grande pilha de i pods em chamas dá um belo barato.

Quem morrer verá!

.

*Michel Aleixo é guitarrista do River Phoenix

Este mundo da injustiça globalizada

por José Saramago*

Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. “O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino”, foi a resposta do camponês. “Mas então não morreu ninguém?”, tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: “Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta.”

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido… Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo…

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros “comissários políticos” do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes…

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

.
*José de Sousa Saramago (1922 – 2010) foi um escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português. Este texto foi lido na cerimônia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002 e foi retirado do site Domínio Público.

O anticristo

por Friedrich Nietzsche*

VI

Um doloroso e trágico espetáculo surge diante de mim: retirei a cortina da corrupção do homem. Essa palavra, em minha boca, é isenta de pelo menos uma suspeita: a de que envolve uma acusação moral contra a humanidade. A entendo – e desejo enfatizar novamente – livre de qualquer valor moral: e isso é tão verdade que a corrupção de que falo é mais aparente para mim precisamente onde esteve, até agora, a maior parte da aspiração à “virtude” e à “divindade”. Como se presume, entendo essa corrupção no sentido de decadência: meu argumento é que todos os valores nos quais a humanidade apóia seus anseios mais sublimes são valores de decadência.

Denomino corrompido um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde seus instintos, quando escolhe, quando prefere o que lhe é nocivo. Uma história dos “sentimentos elevados”, dos “ideais da humanidade” – e é possível que tenha de escrevê-la – praticamente explicaria por que o homem é tão degenerado. A própria vida apresenta-se a mim como um instinto para o crescimento, para a sobrevivência, para a acumulação de forças, para o poder: sempre que falta a vontade de poder ocorre o desastre. Afirmo que todos os valores mais elevados da humanidade carecem dessa vontade – que os valores de decadência, de niilismo, agora prevalecem sob os mais sagrados nomes.

VII

Chama-se cristianismo a religião da compaixão. – A compaixão está em oposição a todas as paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece. Através da perda de força causada pela compaixão o sofrimento acaba por multiplicar-se. O sofrimento torna-se contagioso através da compaixão; sob certas circunstancias pode levar a um total sacrifício da vida e da energia vital – uma perda totalmente desproporcional à magnitude da causa (– o caso da morte de Nazareno). Essa é uma primeira perspectiva; há, entretanto, outra mais importante. Medindo os efeitos da compaixão através da intensidade das reações que produz, sua periculosidade à vida mostra-se sob uma luz muito mais clara. A compaixão contraria inteiramente lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Preserva tudo que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida; e mantendo vivos malogrados de todos os tipos, dá à própria vida um aspecto sombrio e dúbio. A humanidade ousou denominar a compaixão uma virtude (– em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza –); indo mais adiante, chamaram-na a virtude, a origem e fundamento de todas as outras virtudes – mas sempre mantenhamos em mente que esse era o ponto de vista de uma filosofia niilista, em cujo escudo há a inscrição negação da vida. Schopenhauer estava certo nisto: através a compaixão a vida é negada, e tornada digna de negação – a compaixão é uma técnica de niilismo. Permita-me repeti-lo: esse instinto depressor e contagioso opõe-se a todos os instintos que se empenham na preservação e aperfeiçoamento da vida: no papel de defensor dos miseráveis, é um agente primário na promoção da decadência compaixão persuade à extinção… É claro, ninguém diz “extinção”: dizem “o outro mundo”, “Deus”, “a verdadeira vida”, Nirvana, salvação, bem-aventurança… Essa inocente retórica do reino da idiossincrasia moral-religiosa mostra-se muito menos inocente quando se percebe a tendência que oculta sob palavras sublimes: a tendência à destruição da vida. Schopenhauer era hostil à vida: esse foi o porquê de a compaixão, para ele, ser uma virtude… Aristóteles, como todos sabem, via na compaixão um estado mental mórbido e perigoso, cujo remédio era um purgativo ocasional: considerava a tragédia como sendo esse purgativo. O instinto vital deveria nos incitar a buscar meios de alfinetar quaisquer acúmulos patológicos e perigosos de compaixão, como os presentes no caso de Schopenhauer (e também, lamentavelmente, em toda a nossa décadence literária, de St. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner), para que ele estoure e se dissipe… Nada é mais insalubre, em toda nossa insalubre modernidade, que a compaixão cristã. Sermos os médicos aqui, sermos impiedosos aqui, manejarmos a faca aqui – tudo isso é o nosso serviço, é o nosso tipo de humanidade, é isso que nos torna filósofos, nós, hiperbóreos!

.
* Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de Outubro de 1844 — Weimar, 25 de Agosto de 1900) foi um influente filósofo alemão do século XIX. Trecho extraído do livro O Anticristo, de 1888.

O Tesouro

por Eça de Queirós*

I

Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.

Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com alho.

Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.

Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto as três éguas pastavam a relva nova de Abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferio. Como se o resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!

No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios. Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam… E de novo recuaram, bruscamente se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e Rostabal apalpavam nos cintos as cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou viesse de Deus ou do Demônio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente, pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforjes de couro, três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos, senhores e cavalgaduras, ensacariam o ouro nos alforjes e subiriam para Medranhos, sob a segurança da noite sem lua.

— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até á fivela do cinturão.

Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:

— Manos! O cofre tem três chaves… Eu quero fechar a minha fechadura e levar a minha chave!

— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal.

Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o guardavam. E cada um em silêncio, agachado ante o cofre, cerrou a sua fechadura com força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:

Olé! Olé!

Sale la cruz de la iglesia,

Vestida de negro luto…

II

Na clareira, em frente à moita que encobria o tesouro (e que os três tinham desbastado a cutiladas) um fio de água. brotando entre rochas: caía sobre uma vasta laje escavada, onde fazia como um tanque, claro e quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de uma faia, jazia um velho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espadões entre os joelhos. As duas éguas retouçavam a boa erva pintalgada de papoulas e botões-de-ouro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro errante de violetas adoçava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o Sol, bocejava com fome.

Então Rui, que tirara o sombreiro e lhe cofiava as velhas plumas roxas, começou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guanes, nessa manhã, não quisera descer com eles à mata de Roquelanes. E assim era a sorte ruim! Pois que se Guanes tivesse quedado em Medranhos, só eles dois teriam descoberto o cofre, e só entre eles dois se dividiria o ouro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos dados, pelas tavernas.

— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este ouro, não dividia conosco, Rostabal!

O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:

— Não, mil raios! Guanes é sôfrego… Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão novo!

— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo.

Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma idéia, que os deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.

— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro do sangue que escarra! Não dura até ás outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais velho dos de Medranhos…

— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.

— Queres?

Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por onde Guanes partira cantando:

— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás-de ser tu, Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de «cerdo» e de «torpe», por não saberes a letra nem os números.

— Malvado!

— Vem!

Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua. Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o roo, recomeçou a bocejar, com tome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos alforjes.

Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:

Olé! Olé!

Sale la cruz de la iglesia,

Vestida de negro luto…

Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho. uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.

Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava aos freios da égua — Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.

— A chave! — gritou Rui.

E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda — Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.

Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a face e as barbas.

A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforjes novos que Guanes comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se pregasse urna estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira sobre o coração.

Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso forrou, escorreu pela borda do tanque, fumegando.

III

Agora eram dele. só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforjes, guiando a fila das éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro. Alguns ossos sem nome. ele seria u magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos… Mortos como? Como devem morrer os de Medranhos — a pelejar contra o Turco!

Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos alforjes — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não provava capão!

Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura, que recendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-de-rosa.

Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.

Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.

De repente, tomado de urna ansiedade, teve pressa de carregar os alforjes. Já entre os troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa. Tomou um punhado de ouro… Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o roía! Gritou:

— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!

Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava — sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.

Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente; esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse enfim a traição, todo o horror:

— É veneno!

Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho, mesmo antes de comprar os alforjes, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele somente, dono de todo o tesouro.

Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma estrelinha tremeluzia no céu.

O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes

.

* José Maria de Eça de Queirós (1845 – 1900) é um dos mais importantes escritores lusos. Foi autor, entre outros romances de reconhecida importância, de Os Maias e O crime do Padre Amaro, além de diversos contos.

Maria Falconetti

por Ennio e Michel*

lombra de cola. escatolounge. niilirismo. música ambiente de netuno. eletrobronha. surf music de Oz. matéria bizonha. mambolero. ruído de porra nenhuma. dub dúbio. hino ao suicídio coletivo. a puta que te pariu. eco de nada. noisense. bzzt. e por que não? o agradável som de um desafeto sendo estuprado por cavalos. zoombido. grotic. é in no hawaii. uruca cool. valsa insossa. neo tupinipunk. jonestown. kraut crust. graxas à deus. nocivoltz. borrelia vincêndio. tudo isso e muito mais. batucada catatéptica. pornochanchadadélica. … . frevinho fúnebre. ai meu cu, porra. zip. squizofreak. é noix cia ltda. coice delicado. minhas unhas rasgando o chão enquanto o demônio me arrasta para o inferno. dadadrone. tuín. Wah Bap Loops. gap. narco noir. protópera. the dronning shaggs. Beat Bote. meta metal. a flor da minha úlcera. rolé à boca. fuckabilly. cococonha. o de sempre às avessas. retrogressivo. mimimi minimal. chic no último. cancro crônico cacofônico. tretaria. satori de satã. nhá. reggae réquiem. trashoegaze. dodecafunk. humwawa pazuzu akhkharu hassan i sabbah ah pook hex chun chan ix tab. prosopopolca. skatimbó. kung fuzzy. fox trote à galope. !. catatalelepsia. ossos do ofídico. hiptimus hoptimus. 00101010110010110011. dirty rambo. estrepanação. autoboquete. desinteritmos. trans trash. just the gold. plus pus. cotoneticida. cancrum oris (pombagira). atonal incidental. synth qua non. Maria Falconetti #

baixe aqui: vai na fé.

(Resenha do Biu extraída do blog Sirva-se Records)
.

*Maria Falconetti é composta por Michel e Ennio.

Existem muitos coelhos sob à cartola da River Phoenix. Banda de “barulhinho bom” -  como diria Marisa Monte –, já  há muito surrada no underground do DF. É por aí. A River Phoenix sobreviveu a quase uma década de sodomia sonora, como um boneco de judas malhado em cada aparição. Mas os coroinhas não conseguiram derramar uma gota do suco. Ainda hoje, a banda está firme, pronta para uma aparição não combinada no seu Bar Mitzváh e colocar suas tias velhas para levantar as saias. “Mazal-tov” my friend… Viva com isso.Enfim, isso não é importante agora. Esse texto vem a público assumir responsabilidade pelo “ruído de porra nenhuma” Maria Falconetti. Obra priminha safada do interior assinada pelos caras da cartola. Leia-se Michel Aleixo e Ennio Villavelha. Num sábado qualquer, dia do sabá, foi com muito regozijo que eles compraram uma twelve pack de lagers e se deslocaram ao ME Estúdio, Taguatinga. Edmilton, o ponta de lança mor do botão rec foi testemunha. De lá saíram com cinco músicas batizadas com o que há de mais puro e sagrado. Estamos falando aqui de um projeto que almeja resgatar o valor da santíssima trindade, há muito esquecido pela família cristã. Maria Falconetti ao seu bel prazer. Boas vibrações por todo lugar. Reúna os filhos na sala de estar e contemple.

O limite da vida

por Mauro Castro*

Chego ao meu ponto de táxi antes de amanhecer. O lugar está vazio e o telefone está tocando. Corro para atender. Uma mulher com voz preocupada passa o endereço e pede que eu tenha pressa. Ela diz que está acudindo uma vizinha, precisa de um táxi para levá-la ao hospital.

Chegando ao endereço indicado, encontro a mulher no meio da rua, acenando aflita. Fecho o táxi e entro em um pequeno prédio. A mulher vai na frente, explicando que sua vizinha do primeiro andar está com dificuldades de respirar. Entramos pelo apartamento modesto. A vizinha leva-me até o quarto, onde uma senhora esta deitada. Ela está pálida, suando, o abdômen sobe e desce, parece não encontrar oxigênio. Está agonizando.

Percebo que não conseguirei tirá-la dali: a mulher não caminha, fala com dificuldade, é pesada. Ligo para o 192.

O socorro chega em poucos minutos. Ajudo os socorristas da SAMU a levar a mulher até a ambulância. Nós a carregamos suspensa em um lençol, como se fosse uma rede, pois a maca não coube no corredor. Antes de chegar ao veículo, a paciente para de respirar. Não se debate mais, seus olhos fecham, seu queixo cai. Percebemos o que aconteceu e apuramos o passo.

Com a paciente já dentro da ambulância, os esforçados (heroicos) paramédicos começam procedimentos de ressuscitação. Eu e a vizinha da mulher ficamos na calçada, atônitos, sem o que dizer. O dia está amanhecendo, o silêncio do bairro é interrompido pelos bipes dos aparelhos da UTI móvel. O veículo balança com a força da massagem cardíaca. Depois de alguns minutos, que parecem uma eternidade, a mulher volta a respirar.

Com a paciente estabilizada, a ambulância parte veloz, com suas luzes piscantes. Volto para meu táxi e parto também. Rodo devagar, tentando absorver tudo o que vi. A essa altura, o sol já brilha forte, aos poucos as ruas acordam e a rotina me abraça. Mas esse não será mais um dia qualquer: o dia em que socorri alguém que estava no limite da vida.

.
* Mauro Castro é taxista em Porto Alegre e é conhecido na internet por seu blog Taxitramas, em que publica crônicas sobre o cotidiano do seu ofício. Entrevistamos ele por aqui há alguns anos.

Bons dias! – Crônica 1

por Machado de Assis*

5 de abril – 1888

Hão de reconhecer que sou bem criado. Podia entrar aqui, chapéu à banda, e ir logo dizendo o que me parecesse; depois ia-me embora, para voltar na outra semana. Mas, não senhor; chego à porta, e o meu primeiro cuidado é dar-lhe os bons dias. Agora, se o leitor não me disser a mesma coisa, em resposta, é porque é um grande malcriado, um grosseirão de borla e capelo; ficando, todavia, entendido que há leitor e leitor, e que eu, explicando-me com tão nobre franqueza, não me refiro ao leitor, que está agora com este papel na mão, mas ao seu vizinho. Ora bem!

Feito esse cumprimento, que não é do estilo, mas é honesto, declaro que não apresento programa. Depois de um recente discurso proferido no Beethoven, acho perigoso que uma pessoa diga claramente o que é que vai fazer; o melhor é fazer calado. Nisto pareço-me com o príncipe (sempre é bom parecer-se a gente com príncipes, em alguma coisa, dá certa dignidade, e faz lembrar um sujeito muito alto e louro, parecidíssimo com o Imperador, que há cerca de trinta anos ia a todas as festas da Capela Imperial, pour étonner de bourgeois; os fiéis levavam a olhar para um e para outro, e a compará-los, admirados, e ele teso, grave, movendo a cabeça à maneira de Sua Majestade. São gostos) de Bismark. O príncipe de Bismark tem feito tudo sem programa público; a única orelha que o ouviu, foi a do finado Imperador, — e talvez só a direita, com ordem de o não repetir à esquerda. O Parlamento e o país viram só o resto.

Deus fez programa, é verdade (“E Deus disse: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, para que presida”, etc. Gênesis, I, 26); mas é preciso ler esse programa com muita cautela. Rigorosamente, era um modo de persuadir ao homem a alta linhagem de seu nariz. Sem aquele texto, nunca o homem atribuiria ao Criador, nem a sua gaforinha, nem a sua fraude. É certo que a fraude, e, a rigor, a gaforinha são obras do Diabo, segundo as melhores interpretações; mas não é menos certo que essa opinião é só dos homens bons; os maus crêem-se filhos do Céu — tudo por causa do versículo da Escritura.

Portanto, bico calado. No mais é o que se está vendo; cá virei uma vez por semana, com o meu chapéu na mão, e os bons dias na boca. Se lhes disser desde já, que não tenho papas na língua, não me tomem por homem despachado, que vem dizer coisas amargas aos outros. Não, senhor; não tenho papas na língua, e é para vir a tê-las que escrevo. Se as tivesse, engolia-as e estava acabado. Mas aqui está o que é; eu sou um pobre relojoeiro, que, cansado de ver que os relógios deste mundo não marcam a mesma hora, descri do ofício. A única explicação dos relógios era serem iguaizinhos, sem discrepância; desde que discrepam, fica-se sem saber nada, porque tão certo pode ser o meu relógio, como o do meu barbeiro.

Um exemplo. O Partido Liberal, segundo li, estava encasacado e pronto para sair, com o relógio na mão, porque a hora pingava. Faltava-lhe só o chapéu, que seria o chapéu Dantas, ou o chapéu Saraiva (ambos da chapelaria Aristocrata); era só pô-lo na cabeça, e sair. Nisto passa o carro do paço com outra pessoa, e ele descobre que ou o seu relógio está adiantado, ou o de Sua Alteza é que se atrasara. Quem os porá de acordo?

Foi por essas e outras que descri do oficio; e, na alternativa de ir à fava ou ser escritor, preferi o segundo alvitre; é mais fácil e vexa menos. Aqui me terão, portanto, com certeza até à chegada do Bendegó, mas provavelmente até à escolha do Sr. Guaí, e talvez mais tarde. Não digo mais nada para os não aborrecer, e porque já me chamaram para o almoço.

Talvez o que aí fica, saia muito curtinho depois de impresso. Como eu não tenho hábito de periódicos, não posso calcular entre a letra de mão e a letra de forma. Se aqui estivesse o meu amigo Fulano (não ponho o nome, para que cada um tome para si esta lembrança delicada), diria logo que ele só pode calcular com letras de câmbio — trocadilho que fede como o Diabo. Já falei três vezes no Diabo em tão poucas linhas; e mais esta, quatro; é demais.

Boas noites.

.

Joaquim Maria Machado de Assis (1839 – 1908) foi um escritor brasileiro, amplamente considerado como o maior nome da literatura nacional. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, sendo poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, e crítico literário. Testemunhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império e foi um grande comentador e relator dos eventos político-sociais de sua época.

“Bons dias!” são crônicas  de Machado de Assis publicadas na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, com um pseudônimo que fez com que não fossem reconhecidas como de sua autoria até a década de 1950.

21 de Abril

A rua ruiu, a urbs suprimiu a civitas, e o tempo parou, suspenso sobre nossas cabeças como nuvens carregadas de um temporal que nunca haverá. Estamos em Brasília, o berço esplêndido da nova civilização, que de tão nova sequer se sustenta em pé, e sobre ela deita-se eternamente, tombada. O túmulo da História, o fim da estrada. Vias que nos levam a pistas que nos levam a pontes que nos levam a nada.

É Brasília, mas podia ser qualquer lugar.

Jerusalém, Atlântida, Babel, todas fogo de palha, fogos fátuos, e estou farto de jogos, de fogos de artifício.

Roma crepitando. Um balde de água fria!

Nada adianta, ela dorme, fantasmagoria. Canteiro de obras da monotonia.

Caduca desde o início, aos cinquenta e um felicita-se a si mesma, come as velas e assopra o bolo, deseja nunca ter nascido. Agora é tarde. E amanhã é outro dia. Hoje, nunca. É depois de amanhã, ontem, outro dia, novamente outro dia e para sempre outro dia.

Kubitschek acenando para o além, para um amanhã que nunca vem.

Parabéns, distopia.

Navio fantasma

Por Adriano de Almeida*

Fechando a porta, ouço o violão que ressoa no quintal. Meu avô pigarreia o fim da vida. Eu quase não respiro, me concentrando em reprimir o asco.

Como envolvido em plástico, protegido, passo pudicamente a palma pelos móveis, não me expando. Evito gorduras e nódoas. Há ratos no quintal, eu bem sei. Há um concerto de seres perversos, percevejos e pulgas, talvez até morcegos. Concerto que seres avançam pelo teto, esparramam-se no chão, perdem-se entre os móveis, rastreando sombras.

Em um instante tudo pode acontecer. A casa está sobre fossas. O cheiro irrompe no escuro e diz direta a meu estômago. Tento esquecê-lo, atenuá-lo, tento resistir. Quem sabe reagir. Inútil. O cheiro exercerá sua doutrina, cavará suas ruínas: porque o caso é o cheiro existir.

Sim, por que não reagir? E o que é reagir? Em que momento reagir não é também recusar, não é também esquecer?

Ando descalço, sozinho, a casa é grande e cheia de porões. A janela chupa a noite pro meu quarto e faz tremular os meus mais tolos pensamentos. Esboço um movimento evasivo, espécie de força aparvalhada, e acabo quieto e bambo como um a no vento.

Enquanto aliso o branco do lençol, neste momento mesmo, o avô tosse.

O certo seria me entregar, desatolar, desatar, soltar os véus – tocar o pútrido (para torná-lo puro?). Devia era irmanar-me com o escuro, deixar-me ser também aquilo, as partes brancas de minha pele e do lençol saberem outro jeito de ser inaugurar – isso seria talvez – seria isso a esperança?

Lá embaixo o mesmo som de cordas. Elas parecem abrir caminho para as criaturas, concatenando com seus passos. A casa toda é um organismo vivo, ritmado, assustador.

Tudo – meias, luvas, vedações internas –, tudo para seguir a saga. E o cheiro e o jeito da comida de hospitais. A janela chupa a noite. Traz a tosse do velho, seus cem segredos de senhas e filas.

Curvilíneo e descarnado, ele, o avô, velho pó, assimilou numerações excêntricas, ouviu sentenças veladas e a cantilena das bulas, zanzou por corredores brancos e uiva lá embaixo o seu destino calcinado.

Em zelo incorruptível, as outras filhas da espera, pernas de varizes, braços de sacolas, silenciam maldições, suportando as filas. Bocas de gaze. Em corredores brancos, aventais nervosos erram entre as macas e os guichês. O avô voltando cada vez mais furado, a boca feia, desbeiçada. No catre a voz da dona faz promessas, a mão tremendo sempre:

– E a família choooora, santa!

– Só Deus, menina. Só Deus.

Cada qual pode guardar suas lembranças, falamos todos muito pouco. A avó é surda e pouco sabe crochê, nunca dançou, falou a vida inteira sem ser entendida e está cansada. O filho é esquizóide trina as cordas de nylon, fios do tempo tão tênues. E o avô? – pergunta que viaja entre as escalas. E o que é de seu Laor? Talvez ele imagine um prato muito suculento, um prato de macarronada, muito molho. Um pedaço de abacaxi, que tanto ama. Laor não pode comer. Os olhos cheios de alegria urgente, a boca seca, e uma garganta que é um infinito de saudades, um pântano esquecido. Seu Laor, o avô, não come mais. Agora faz a vida na madeira: desenha trecos, faz ferramentas, esculpe a vida. Cospe de lado.

Laor, o avô – ele tem câncer.

E nessas horas, que a noite prima em ser passado; e nessas horas, que todo peso agora desce, que tudo é escuro e deselegantemente sério, Laor aperta a mão no peito, ajeita-a na garganta e emite um som que finjo não ouvir.

A noite suga a teia da memória. A avó balança na cadeira. Não ouve o som das rádios piratas, nem dos carros, que vão longe. O horror tateia os móveis. Será sempre assim? Nas fotos de Laor há um dorso novo – ele era o mais bonito de toda uma numerosa e saudável geração que percorreu cidades e cidades, todos bêbados, todos mancos, todos tristes – só que Laor tocava trompete. Na foto via-se o dourado do instrumento. Laor, bochecha cheia e avermelhada, soprava firme o tubo milagroso – Este Laor, foste dado!

O quarto fermenta, desfilam algumas cores pelo escuro. Parecem aviõezinhos, tufos de algodão, espuma. Aperto os olhos: a cor aumenta, vai e volta. Aperto o peito. Há muitos séculos fazem isso, apertam o peito. Laor aperta o peito e pode esfarelar-se, diluir-se. Me lembro que batia firme um murro na parede, fazia até tremer a casa. Com ele ali, dizia, ninguém faria mal à gente. Hoje se esfarinha e ninguém vê.

Laor, a vida é curta e cabe aqui na minha mão assim: a mãe tem culpa, o pai tem culpa, eu tenho culp… caiu no chão a espuminha branca. Andou voando e se desequilibrou. Os voos mais heróicos um dia têm sua queda. É a regra. Como a Gramática que estudaste, com aquelas regras que jamais poderás abolir. Sim, porque abolo não existe, tu te lembras? Aceitar, então, Laor? Como? Como ver em minha mão o que não há? Como ver as espuminhas? Como ver as nuvenzinhas ziguezageando livre do concerto. Igual àquele homem do mar, que Laor leu pra mim: sozinho, contra a força.

A avó balança em frente da TV, Laor tritura a pele da madeira, o tio dedilha a solidão absorta. Então é sempre assim? A crueldade do que não se move. Laor, não; alguma coisa come vagarosamente. O tempo, e seus desígnios. As células. Laor tritura a pele da madeira – trituram-lhe mãos muito mais duras, bem menos vagarosas e ainda quando dorme. Puseram formas esquisitas em seu rosto, brincaram de tirar-lhe as carnes, cismaram de arrancar-lhe os lábios, deram-lhe seca à boca. Concluem: Laor é sem secreção. É sem segredo.

O tio dedilha um mundo inteiro. Laor e a vó sorriem vagos. Sempre assim. Olhos ressabiados: os velhos adivinham coisas que não vemos. Naqueles momentos tensos, naqueles suspiros largos, enquanto dorme a avó na cadeira, suspendendo o tempo – cadeira feita por Laor, mãos ágeis contra o tempo, mãos grossas contra o peito, mãos hábeis e obsessivas, mãos vivas; – era então que eles sabiam: sempre assim.

Os musgos e os resmungos se acavalam em confraria. As assembleias voam velozmente noite adentro. Resisto à cama. O último cigarro iluminando o breu. Escuto o respirar pesado. A casa sua, o concerto. Eu.

A nave inteira – suja cega surda – silva. Eu vou sumindo no intervalo claro que antecede o sono, eu vou seguindo.

Um marinheiro novo já cansado das marés, do sal denso dos mares. Da estúpida viagem.

São Paulo, 1998.
E o avô morreu exatamente nesse ano.

.

* Adriano de Almeida é paulistano, pai, escritor e professor de literatura.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.